Apesar do título falar claramente para iniciantes, considero que foi no tempo certo que li
Cartas a um jovem
poeta, de
Rainer Maria Rilke. Mais de três décadas depois dos
primeiros passos, primeiros poemas publicados em jornal, após tantos anos de convivência, busca, trato e arenga com a palavra, estava maduro para absorver não apenas as lições literárias mas sobretudo as lições de vida. E a gritante constatação é que, a duras penas, fiz o caminho certo: "
procure entrar em si mesmo;. Investigue o motivo que o manda escrever;examine se estende suas raízes pelos rrecantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria se lhe fosse vedado escrever? Bem, tirando a carga dramática (acredito que encontraria outra(s) maneira(s) de me expressar e me incluir no mundo), considero que construí minha vida "
de acordo com essa necessidade".
Por outro lado, talvez fosse mais fácil o caminho se houvesse lido as
cartas na adolescência, quando procurava abrir trincheiras e tive que cavar, rasgar trilhas na difícil caminhada rumo à literatura e à vida plenas. Mas agora, às vésperas dos 50 anos, vejo que ainda aprendo com Rilke, e não pouco: as lacunas de autodidata, órfão (pai morto, mãe analfabeta), de errante vão aos poucos sendo iluminadas pela generosidade do poeta, por seu despojamento e nobreza de alma, aqui me apontando erros, ali me fazendo vibrar com acertos e pequenos sucessos.
É um livro indispensável, digo, sem medo do exagero. A convivência pessoal que tive com poetas tão generosos quanto Celina de Holanda e Alberto Cunha Melo - e a convivência espiritual com Lourdes Sarmento e Nei Duclós - supriram de certa forma a ausência dos conselhos de Rainer Maria Rilke. Mas as
cartas são fundamentais.
E por falar em Nei Duclós, é dele o prefácio à edição que tenho em mãos: quente, apaixonado e afirmativo como o poeta gaúcho, como uma profissão de fé.