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Shvoong Home>Livros>Referência>O ROMANCE BRASILEIRO DEPOIS DE 1930

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O ROMANCE BRASILEIRO DEPOIS DE 1930

por : magnus2    

Autor : Alfredo Bosi

No

século XX, as décadas de 30 e 40 foram decisivas para o romance brasileiro, não só pelas grandes transformações pelas quais passou a vida do país no plano social e político - a crise do café, a Revolução de 30, o declínio das oligarquias nordestinas, o surgimento de uma classe média urbana - como também pela influência que nos vinha da Europa. Depois da explosão dos "ismos" que haviam tentado renovar a arte e a literatura para adequá-las ao mundo moderno, no qual era imperioso reconhecer a hegemonia da ordem burguesa - que, embora já servisse de pano-de-fundo para a literatura ocidental havia dois séculos, suscitava, por parte do romancista, atitudes que não contemplavam a relação do homem comum com essa ordem em que se via, impotente, obrigado a levar sua trajetória existencial - o romance se voltava à contemplação e reflexão da situação do homem comum diante dessa realidade acachapante.


Até então, o romance brasileiro se orientava por tendências que o tipificavam como romance social-regional ou romance psicológico, categorias que se revelaram precárias para situar a relação mundo- "homem-comum". Por isso, como no romance europeu, passou-se a buscar na tensão entre ego e sociedade a figura do "herói problemático".


Esse "herói problemático", assim, or~ empreende a busca de valores pessoais para vencer a hostilidade do meio, ora se recolhe ao próprio mundo interior, fechando-se na memória e na análise dos particulares sentimentos e



emoções, ora se esforça, autolimitando-se, para sujeitar-se ao mundo que lhe dificulta a existência.


O crítico e historiador Alfredo Bosi, apoiando-se na obra de Lucien Goldman, Pour une sociologie du roman, propõe distribuir o romance brasileiro, de 1930 até hoje, em quatro tendências, considerando a intensidade da tensão entre o homem comum e seu mundo:


a) Romances de tensão mínima: há conflito, mas este configura-se em termos de oposição verbal, sentimental quando muito: as personagens não se destacam visceralmente da estrutura e da paisagem que as condicionam. Exemplos, as estórias populistas de Jorge Amado, os romances ou crônicas da classe média de Érico Veríssimo e Marques Rebelo, e muito do neo-regionalismo documental mais recente;


b)Romances de tensão crítica: o herói opõe-se e resiste agonicamente às pressões da natureza e do meio social, formule ou não em ideologias explícitas o seu mal-estar permanente. Exemplos, obras maduras de José Lins do Rego (Usina, Fogo Morto) e todo Graciliano Ramos;


c)Romances de tensão interiorizada: o herói não se dispõe a enfrentar a antinomia eu/mundo pela ação: evade-se, subjetivando o conflito. Exemplos, os romances psicológicos em suas várias modalidades (memorialismo, intimismo, auto-análise ... ) de Otávio de Faria, Lúcio Cardoso, Comélio Pena, Cyro dos Anjos, Lígia Fagundes Telles, Osman Lins;


d)Romances de tensão transfigurada: o herói procura ultrapassar o conflito que o constitui existencialmente pela transmutação mítica ou metafísica da realidade. Exemplos, as experiências radicais de Guimarães Rosa e Clarice Lispector.


O conflito, assim "resolvido", força os limites do gênero romance e toca a poesia e a tragédia.



NOTA:


Nos romances de tensão transfigurada, não ocorre a transposição da realidade social ou psíquica das personagens; neles o que se reconhece é a construção de uma outra realidade, visto que os autores desse tipo de romance têm a consciência de que produzem objetos de linguagem



Referência bibliográfica:


ALFREDO BOSI, História Concisa da Literatura Brasileira, São Paulo, Cultrix, 2" ed., 1975.




 
Publicado em: julho 30, 2009
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