Viver na cidade é muito
diferente da vida no
campo. Para uma criança que vivia durante quase todo o ano num apartamento, numa época em que a educação era fortemente limitada e sujeita a padrões de comportamento muito tradicionalistas, sair para visitar os avós que tinham uma casa enorme no campo e viviam num mundo completamente diferente, era algo que nunca se esquece. Recordava-se doutros tempos em que, nas férias de Natal, visitava os avós. Juntava-se a família e para as crianças eram uns dias inesquecíveis. Os pais, os avós e tios andavam ocupados pois, tinham muito para conversar. Sentavam-se à lareira e passavam horas à conversa. Os mais novos tinham liberdade desde que comparecessem a horas
às refeições. Desse modo, aproveitavam para passear e, nalguns casos, até havia situações engraçadas. Uma vez, resolveram brincar junto a um tanque grande que havia no quintal. Houve alguém que se lembrou de aproveitar a camada de
gelo para patinarem no tanque. O
frio era intenso e um a um foram subindo e começaram a deslizar no gelo. Só que, com o peso e no meio a camada não era tão densa que o gelo estalou e dois mergulharam na água gelada. Chegaram a casa a tiritar de frio e ouviram um ralhete de todo o tamanho. Mas a partir da data marcada, começavam a pensar no presépio, na árvore de Natal, e como tudo era tão simples e tão bonito! Procuravam-se os “bonequinhos” de barro que vinham de antanho, arrumados no sótão. Preparava-se o local onde se ia fazer tudo e todos colaboravam: o musgo que se ia buscar às matas; o lago que era um espelho que não se usava, a areia com que se faziam as elevações para colocar a Igreja, as encostas onde se dispunham as casas, os caminhos mais direitos ou tortuosos que levavam ao vale. Não faltavam as ovelhas, umas maiores outras mais pequenas, colocadas com carinho especial junto das mães, o pastor, o cão. Tudo era feito com muito cuidado. A parte mais importante, sem dúvida, era a cabana tosca onde se colocavam os animais que iriam aquecer o menino, o berço não eram mais do que umas palhinhas que se juntavam. Não
faltava a ponte para atravessar o rio, o moinho, os patos colocados no lago...e assim o presépio crescia com as ideias de todos. Os Reis Magos eram postos a caminho onde chegavam no dia de Reis. A árvore começava-se a oito de Dezembro com fitas coloridas, bolas, algumas já gastas pelo tempo mas, isso era secundário. Partiam-se nozes e as que não se estilhaçavam serviam para iluminar a árvore na noite de Natal. Dois dias antes pensava-se na ceia e verificava-se se nada faltava. Nada de exageros mas, os doces tradicionais não falhavam e as refeições começavam a preparar-se de véspera com muita azáfama e todos tinham alguma coisa para fazer. Não podia acabar comida pois podia aparecer mais alguém com quem não se contasse. À ceia havia muita excitação: os mais
velhos recordavam os seus tempos de juventude, os mais novos pensavam no
sapato ou na meia que iriam pôr na chaminé. No final, jogavam-se ao rapa e às cartas e ninguém gostava de perder nem que fosse a feijões, os quais eram distribuídos pelos participantes. Os pais animavam os novos com histórias ou novos jogos até que, próximo da meia - noite todos se preparavam para a ir à missa do galo. Gostavam muito mas, o frio era o pior Verificava-se pelos vidros humedecidos das janelas e lá íam sempre com a ideia de que no regresso a chaminé seria o ponto fulcral para todos. Depois era complicado e divertido porque colocar o sapato era muito importante. A agitação permanecia mas, os mais velhos mandavam-nos para a cama. Havia sempre desculpas para ficar mais um pouco mas, não havia nada a fazer. Mesmo os que sabiam que, posteriormente, alguém se encarregaria de fazer a distribuição dos presentes não se dizia nada: segredo era segredo.
A excitação permanecia, no dia seguinte, com o acordar cedo e muito alvoroço. Os mais velhos não achavam muita graça à brincadeira; porém acabavam por os acompanhar. É que se a preocupação dos pais fossem os presentes dos filhos, não faltava o cachecol no sapato do pai, um enfeite para a mãe. E as promessas surgiam de estudar mais, serem bem comportados, porque o menino Jesus até fora muito generoso. A festa continuava com os novos brinquedos e cada um queria ver e brincar com o dos outros. A família não se podia considerar pobre mas não havia esbanjamentos, a preparação para a missa era especial porque cada um queria levar a roupa nova que aparecera no sapato. Que confusão para a família que os aturava com toda a paciência. E era sempre diferente!
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