Chegou o dia de baptizar-se o rapaz; foi madrinha a parteira; sobre o padrinho houve suas dúvidas; o Leonardo queria que fosse o sr. Juíz; porém, teve de ceder a instâncias da Maria e da comadre, que queriam que fosse o barbeiro de defronte, que afinal foi adoptado. Já se sabe que houve nesse dia função: os convidados dos donos da casa, que eram todos de além-mar, cantavan ao desafio, segundo os seus costumes; os convidados da comadre, que eram todos da terra, cantavam o fado. O compadre trouxe a rabeca, que é, como se sabe, o instrumento favorito da gente do ofício. A princípio o Leonardo quiz que a
festa tivesse ares aristocráticos, e propôs que se dançasse o minuete da
corte. Foi aceita a ideia, ainda que houvesse dificuldade em encontrarem-se pares. Afinal levantaram-se uma gorda e baixa matrona, mulher de um convidado; uma companheira desta, cuja figura era a mais completa antítese da sua; um colega do Leonardo, miudinho, pequenino, e com fumaças de gaiato, e o sacristão da Sé, sujeito alto, magro e com pretensões de elegante. O compadre foi quem tocou o minuete na rabeca; e o afilhadinho, deitado no colo da Maria, acompanhava cada arcada com um guincho e um esperneio. Isto fez com que o compadre perdesse muitas vezes o compasso e fosse obrigado a recomeçar outras tantas.
Depois do minuete foi desaparecendo a cerimónia, e a brincadeira aferventou, como se dizia naquele tempo. Chegaram uns rapazes de
viola e machete: o Leonardo, instado pelas senhoras, decidiu-se a romper a parte lírica do divertimento. Sentou-se num tamborete, em lugar isolado da sala, e tomou uma viola. Fazia um belo efeito
cómico vê-lo em trajes do ofício, de casaca, calção e espadim, acompanhado com um monótono zunzum nas cordas do instrumento o garganteado de uma modinha
pátria. Foi nas saudades da terra
natal que ele achou inspiração para o seu
canto, e isto era natural a um bom português, que o era ele. A modinha era assim:
Quando estava em minha terra,
Acompanhado ou sozinho,
Cantava de noite e de dia
Ao pé dum copo de vinho!
Foi executada com atenção e aplaudida com entusiasmo; somente quem não pareceu dar-lhe todo o apreço foi o pequeno, que obsequiou o pai como obsequiara ao padrinho, marcando-lhe o compasso a guinchos e esperneios. A Maria avermelharam-se os olhos e suspirou.
O canto do Leonardo foi o derradeiro toque de rebate para esquentar-se a brincadeira, foi o adeus às cerimónias. Tudo daí em diante foi burburinho, que depressa passou à gritaria, e ainda mais depressa à algazarra, e no foi ainda mais adiante porque de vez em quando viam-se passar através das rótulas da porta e janelas umas certas figuras que denunciavam que o Vidigal andava perto.
A festa acabou tarde; a madrinha foi a última que saiu, deitando a benção ao afilhado e pondo-lhe no cinteiro um raminho de arruda.
Mais críticas sobre Memórias de um Sargento de Milícias