“Quincas Borba”, romance da segunda fase do autor Machado de Assis,
publicado em 1891. Neste romance, Machado cria um personagem, Rubião que necessita de outros personagens, dependentemente dos fatos e das pessoas, inclusive de Quincas Borba, de quem herda uma fortuna e muda-se de Barbacena para o Rio de Janeiro, espaço propício para a sátira e a
ironia dos bons (ou maus costumes) da sociedade da época. Rubião nos chama a atenção por ser o único personagem realista a possuir um emprego, ao passo que em outros romances, como o anterior “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e o posterior “Dom Casmurro”, os personagens principais Bentinho, Brás Cubas e até o próprio Quincas Borba já nascem ricos e não precisam trabalhar para sobreviver. Ao receber a herança do amigo filósofo, Quincas Borba em troca de proteger e guardar o cão, que também possuía o mesmo nome, Quincas Borba, Rubião passa a viver uma vida hostil e ociosa, esbanjando a fortuna herdada. È de se notar que Machado tece uma narrativa crítica à sociedade da época e, como alvo principal ele critica as mais aclamadas ciências do século XIX, o positivismo, o evolucionismo e o darwismo, enfatizando no romance a questão de o homem ser objeto do próprio homem. Dessa forma percebemos o quanto Machado desacreditava no poder dessas ciências como soluções eficazes de fazer do Brasil uma grande nação. Talvez, devido a suas críticas aos “ismos” científicos, alguns críticos o apontam como anti-nacionalista, pois as obras literárias de sua época ainda traziam traços arraigados ao movimento romântico, num ufanismo recheado de subjetivismo. Machado, nos romances de sua fase madura consiste lançar olhares ao passado e ao futuro, insinuando um mundo estranho e original sob a neutralidade aparente de suas histórias, isentando-se das técnicas arcaicas de sua época, criando uma estilística moderna para o seu tempo. O exemplo disso é que se tem nele o narrador de “onisciência intrusa”, provocando interrupções na prosa e divagando o(a) leitor(a), quebrando dessa forma os paradigmas estabelecidos pela teoria do romance realista. Segundo o mestre do Realismo, o francês, Gustave Flaubert (1821-1880) o romancista deveria proceder como se os fatos contassem por si mesmos, poupando o narrador da objetividade da narrativa, sem expor qualquer dúvida ou ambigüidade. Machado opõe a essa teoria, abrindo diversas possibilidades de leitura e perplexidades não resolvidas, graças ao ser ar irônico, fazendo valer a ironia trágica de Sófocles, que se faz afirmar na
literatura grega, que, “sem ironia não há tragédia”. Em Machado temos a ironia instável, de efeito imediato, classificada por Georg Lukács (1885-1975) “como propriedade exclusiva do romance”, indo-se de encontro ao histórico-filosófico: no romance, por exemplo, Machado critica as maneiras corruptas dos homens em tentar ascenderem socialmente, sem a força do trabalho, mas pela exploração do próprio homem. Em “Quincas Borba” temos o deslocamento social de Rubião, que deixa de seguir a carreira de magistratura para tornar-se enfermeiro de Quincas Borba, sendo essa a mais lucrativa, pois, ao herdar a fortuna de Quincas, ele torna-se doutor e cobiça da sociedade carioca, tendo essa o principal objetivo em tirar-lhe todo o seu dinheiro, a ponto de enlouquecê-lo, fazendo-o compreender o verdadeiro sentido da vida, qual, também, fazia parte da filosofia do amigo filósofo, isto é, somente vence aquele que é o mais forte e melhor: “ao vencedor, as batatas”. Quando Rubião viaja para o Rio de Janeiro, ele conhece o casal, Christiano Palha e Sofia; Palha deixa de ser um simples comerciante para tornar-se um banqueiro, ao contrário de Rubião, fez-se mais astuto e inteligente, adquirindo imunidade para resistir à sociedade. Ele ignora os meios éticos, abusa de certas estratégias para ascender no alto escalão social, aproveitando até mesmo da beleza de sua mulher para iludir e roubar Rubião, valendo-se de uma ironia que defende o valor das atitudes mesquinhas, capazes de tornar o indivíduo rico e poderoso. Outro personagem que merece destaque sob a ótica da ironia machadiana é o político Camacho que ilude Rubião com uma suposta indicação para tornar-se deputado em Minas Gerais, induzindo-o a contribuir economicamente com seu jornal “Atalaia”. Este personagem é uma maneira satírica de Machado criticar a política da sua época e até como eles usavam de enganações e ilusões, para ter em mãos o poder político. Machado de Assis, neste romance, critica ceticamente o Brasil, que, assim como Rubião se enriquece, depois de explorado e enganado por sarcásticos capitalistas, cujos interesses eram explorar indivíduos em boas situações. No final do romance, acerca da loucura de Rubião, Machado ironiza o Império, quando Rubião finge ser o imperador. Machado faz o leitor entender, através de suas irrupções e indagações os aspectos do Brasil de seu tempo, criticando-o de forma moderna e irônica, narrando os acontecimentos de maneira franca sobre o final da crise de 1860 ao início de 1870. A sua narrativa é de maneira universal e trata-se de problemas remotos como a escravidão, a guerra do Paraguai e das especulações e explorações comerciais. O retrato do Brasil é esboçado através da figura de Rubião, que traz toda a verdade machadiana que se preocupou, como cidadão moderno em seu tempo a narrar verdades que envolviam a história do seu povo.