"Ler
clássicos é melhor do que não os ler" Com essa afirmação, o escritor italiano
Ítalo Calvino resume de maneira breve seu pensamento, nesse eficiente
Por que ler os clássicos? Nele, o intelectual,
consagrado como um dos maiores escritores do século 20, procura convencer os recalcitrantes leitores atuais a ler livros de peso da
literatura universal. Calvino é autor de pelo menos um candidato a clássico, o livro
Cidades Invisíveis, publicado em 1952 e sua estratégia é oferecer um banquete literário, cujo “menu” é composto de seus comentários a respeito de obras consideradas indispensáveis pelos especialistas, como o poema de estrutura “policêntrica e sincrônica”, Orlando Furioso, escrito por Ariosto pela primeira vez em 1516.
A impressão de que irá enfrentar compêndios enfadonhos e espiritualmente embolorados assusta os aventureiros da arca da literatura ? Didaticamente, Ítalo Calvino convence os mais amedrontados, desde os que preferem afirmar que estão “relendo” os clássicos por medo de serem discriminados como incultos, até os que se consideram um tanto “maduros” para iniciar a leitura dos mesmos. Tenta fazê-los ver que não precisam temer iniciar esse tipo de leitura, mesmo que tardiamente. O autor argumenta, por exemplo, que começar a lê-los em idade adulta acrescenta ao ato um sabor especial fornecido pela própria bagagem vivencial do leitor, que o tornará apto a melhor apreciar o conteúdo sempre surpreendentemente atual de tais livros, geralmente do tipo que “nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Sua capacidade de permanecer no tempo está relacionada à sua competência em interagir com a cultura, marcando-a com seus traços, por vezes subliminares, o que faz com que, na realidade inexistam “primeiras leituras” de clássicos, mas apenas “releituras”.
Chama a atenção também para o fato de eles poderem se constituir à maneira de talismãs, equivalentes universais nos quais os leitores podem perder-se ou achar-se por semelhança ou oposição. O escritor italiano repele a idéia de que clássicos sejam livros “antigos”, já que, para ele, o que os caracterizam é o fato de ocuparem “um lugar próprio numa continuidade cultural”. Se aplicarmos esta última idéia à literatura brasileira, por exemplo, poderíamos dizer que os textos da geração de escritores da chamada “geração de 45”, que se consagraram no pós-guerra, tais como Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, teriam claramente um lugar na categoria, já que seus escritos, apesar de não serem mero continuísmo da produção (erroneamente?) denominada “regionalista” da década de 30, não deixam de apresentar um lugar na árvore genealógica da literatura brasileira, posterior aos escritos de expoentes como Jorge Amado e Graciliano Ramos.
Depois desse exercício de convencimento, o autor se dedica à parte que poderíamos considerar, figuradamente, como “degustativa” do texto. Nela produz comentários francamente deliciosos, e deliciados, sobre livros que constam do imaginário cultural. Assim, ele vai apresentando a obra de representantes consagrados de países diversos, como a Odisséia grega e um título do britânico Charles Dickens,
Our Mutual Friend, chegando por fim à América Latina, em um comentário sobre a obra de Jorge Luís Borges, cuja forma particular de escrever, que Calvino denomina “breve”, condensa em “pouquíssimas páginas uma riqueza extraordinária de sugestões poéticas e de pensamento”. Segundo ele, tal qualidade o conduziu à tentação de formular uma poética na qual louvaria essa maneira singular de expressar-se do genial escritor argentino.
O resultado da leitura de tal “menu” excelentemente elaborado deixa uma sensação de “missão cumprida”, já que o que autor de
Por que ler os clássicos? nos apresenta é um guia cuidadoso e apaixonado de um intelectual consagrado em viagens pelas terras da herança cultural literária da humanidade, realizado com maestria, para o deleite dos que pretendem assumir compromissos inadiáveis de aquisição cultural.