O meu nome é Amanda Carter. Tenho dezassete
anos e vivo numa pequena cidade na Inglaterra com o meu
pai, a minha madrasta e o meu meio-irmão, Tomy. A minha mãe
morreu há muitos anos atrás. Há demasiado tempo...já me é difícil recordar o rosto dela. Mas ainda me consigo lembrar do cheiro dela. Era uma espécie de mistura entre alfazema e laranja.
A minha mãe...(há muito tempo que não juntava estas três palavras). Ela era a coisa mais importante para mim no mundo, portanto, tem de ser a primeira de quem vou falar. Mesmo antes de mim, porque, embora o diário seja sobre mim, sobre a vida de Amanda, ela era, é e sempre será uma parte de mim.
A parte mais bela de mim, pelo menos.
Era uma mulher alta, bela como poucas. Tinha a pele suave como seda, e tal como já disse, trazia sempre consigo um cheiro de alfazema e laranja. Uma mistura estranha, não? Não. Para ela, não. Nela, nada era estranho. Aliás, era tudo estranhamente – mas deliciosamente – familiar.
Penso que o cheiro a laranja devia-se ao facto de estar sempre a comer
laranjas. Sempre. Até que por fim, tinha eu três anos, comprámos uma
laranjeira. Ela ficou deliciada. Plantámo-la, os três, no jardim das traseiras. Durante anos, lembro-me de me sentar todos os dias à janela e vê-la calmamente a atravessar o jardim, e com os seus gestos suaves, erguer-se e encher o
avental de laranjas. Fazia parte da sua rotina matinal. Quando os primeiros raios de sol atravessavam o quarto, levantava-se e beijava o meu pai. Depois, vestia o robe e entrava no meu quarto.Tomava um duche rápido, vestia-se e descia para a cozinha. Punha o avental e, sempre a sorrir, ia ao quintal. Nessa altura, eu já estava acordada. Acordava sempre ao ouvir a porta abrir-se, embora ela fosse silenciosa como um gatinho manso. Mesmo assim, fingia sempre estar a dormir. Não sei porquê, mas fingia. Depois de ela sair do quarto, levantava-me e lá estava ela, dez minutos depois, com o avental de algodão puro enrolado no seu corpo magro. Em poucos segundos, este enchia-se de laranjas. Depois de olhar uns minutos para a laranjeira, entrava na cozinha e começava a preparar o pequeno-almoço, cuidadosamente.
No
dia em que ela teve o acidente que a levou para sempre para longe de mim, a laranjeira morreu. Ainda hoje, não percebo porquê. Um dia antes estava esplendorosa como sempre. Já tinha cerca de dois metros. Mesmo assim, morreu. Do nada, tal como a minha mãe.
Sinto muito a falta dela. Ela era, sem sombra de dúvida, o meu mundo. Lembro-me ainda de quando me levou para a escola infantil, no meu primeiro dia de aulas. Eu estava super nervosa, mas com um simples beijo, todos os meus medos desapareceram. Prometeu que estaria ali á hora do toque.
- Um pouco antes, pode ser?
- Está bem.
Cumpriu a sua palavra à risca. Estava a falar com o porteiro da escola quando eu saí. Era assim a minha mãe: adorava conversar, e desde a pessoa mais rica até à mais pobre, conversava, da mesma maneira.
Quando eu cheguei, abraçou-me. Encheu-me de perguntas. Despediu-se do porteiro e levou-me até ao carro. Conversámos o caminho todo. Contei-lhe tudo, mesmo os pormenores mais insignificantes. Ela ouviu, sempre atentamente. Ela realmente, ouvia. Existem de pessoas que fingem ouvir. Nós falamos e eles estão noutra. Ela não. Com a mesma capacidade que falava, ouvia. Ouvia mesmo, fazia perguntas, interessava-se. Ela interessava-se por mim.
Morreu dia vinte e sete de Outubro, num acidente de automóvel. Acho que uma parte de mim morreu nesse dia. E do meu pai também. Contudo, ele conseguiu tocar a vida para a frente. Eu não. Nunca mais consegui.
É claro que a vida continuou. Mas, e ainda hoje sinto isso, parece que eu parei no tempo, e continuo agarrada às memórias daqueles tempos em que éramos só nós os três, o meu pai a cozinhar e a minha mãe e eu a brincarmos às bonecas ao pé do fogão.
Tenho poucas recordaç
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