Jorge Amado, um nome maior da literatura
contemporânea brasileira e mundial consegue, com
Dona
Flor e os seus
Dois
Maridos, uma crítica mordaz à sociedade brasileira,
estreita em seus costumes e de anseios limitados.
As aspirações de uma bela cozinheira e dos
seus 'quituques', bem balançadas por um samba que
ecoa entre as linhas, reflectem, de forma
despudorada, as contradições de uma sociedade de
vícios secretos e públicas virtudes.
A jovem viúva
Flor precisa de
sexo - e sexo é aquilo
que não terá - enquanto não se libertar da carga
pesada que envolve as tramas da vizinhança e o
conservadorismo vigente
Para tal, só no Além, no inantigível, no
impossível,
consegue - assim já não é pecado - assim é só
visão do amor - assumida pela realização do desejo
através do marido morto e não do namorado vivo.
A sociedade observa por detrás das cortinas, critica
em segredinhos, comenta a todas as horas, nas ruas
e na igreja, o sexo é entendido como tabu, como
proibido até mesmo em pensamento,
Dona Flor floresce. O prazer é o prazer da vida, do
sexo, da boa comida, do sol sempre eterno que jorra
sobre ela. A roda do destino deu uma segunda
oportunidade a Flor. Devolveu-lhe o marido morto e,
melhor, devolveu-o só para ela - não tem já de o
partilhar com as inúmeras concorrentes que o levaram
à morte, num Carnaval sem fim.
O namorado vivo ajusta-se também à menina-criança
na dança de roda que é Flor - a mulher que ama e
respeita transforma-se na mulher que deseja - ele
próprio cresce, transforma-se, evolui. Do homem sério
ao Amante.
O prazer - entendido por Dona Flor como realização
da
sua feminilidade, vai ter então de despontar. E é um
milagre da criação. Um verdadeiro docinho de côco.
Ou dois
Miss Pink