Ricardo Reis é uma criação de Fernando
Pessoa. Mais propriamente, é um dos seus heterónimos. Talvez deva esclarecer que Fernando
Pessoa teve uma obra multifacetada, que intencionalmente dividiu em 4 conjuntos, criando um heterónimo para assumir cada uma das diferentes facetas do seu trabalho. Eu, pessoalmente, prefiro os poemas que assinou com o próprio nome.
José Saramago ousou dar corpo a um desses personagens de ficção. Cria-lhe uma vida e fá-lo interagir com Fernando
Pessoa (
morto).
Esta ligação dura aproximadamente nove meses. Saramago leva-nos através de uma ideia inovadora. Demoramos nove meses para chegar ao mundo, e demoramos o mesmo tempo a deixá-lo. É um processo de transição, durante o qual o morto vai esquecendo o que foi estar vivo, os caminhos percorridos, os sentimentos vividos. Descobre que nada importa. Nada do que vivemos importa. Chegado ao fim desse tempo, o morto está pronto para partir.
No momento em que Pessoa vai despedir-se de Ricardo Reis, porque chegou a sua hora de deixar definitivamente o mundo, recebe uma resposta inesperada: “Vou consigo”. É um fim brilhante, para a história.
Que bom seria se para cada um de nós, a morte se tornasse efectiva no instante da nossa escolha. Algo como, simplesmente, desligar-se da vida.
O tema morte, aparece muitas vezes na obra de Saramago. Recomenda-se a leitura de “As Intermitências da Morte”.