Literatura tem a ver com criação e permanência. Criar coisa nova é algo mais difícil que pensar em criar coisa nova. Permanecer é problema ainda maior. Se tem problema, no entanto, tem meio caminho andado para a solução. Há que se dedicar trabalho à questão. George Orwell é este exemplo de trabalho criativo e permanência. Lembrar que a obra do milênio passado permanece entre as mais quaisquer coisas que se queira dizer em literaturaé o óbvio. Recordar que a sentença verdade é mentira e duplipensar a regra é a coisa mais banal: como se alguém fosse dizer a Cristóvão Colomboassim até eu ponho um ovo em pé. Ahistórianão registrou o inventor da roda, coisa simples, porqueantes era pau de arrastoe puxa e empurra e sacode e vai. Rodar qualqer coisa agora já é fácil. Ser criativo como dobrar arame e fazer pressão para prender papéisdá nó em pingo dágua. Orwell é criativo em propor 1984, um futuro que já passou e, vejam só: ainda permanece. E perene, não vamos dizer comoos livros sagrados, mas como os bons livros. Ainda por cima, tem uma boa trama de amor, desejoe inveja misturando-se na crítica política cáustica. O grande irmão, que os panacas do olho grande tentam arremedar, é mais passarinho que fatuidade global. Calma Orwell, eles passarão.
Leia de Adroaldo Bauer
* O Império Badido
* O Dia do Descanso de Deus
* Poemethos 1 a 16
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