Dez Anos de “Kest” – "Quando
um homem é feliz, um dia vale um ano", este interessante conto inicia com o autorrecordando este antigo provérbio muitocitado pelos judeus russos.
David Kirch, filho de um professor prudente e sensato não tomava decisões relevantes sem ouvir o conselho dos mais velhos. Assim, quando pensou em casar-se, ouviu do pai a recomendação: Evites qualquer casamento que resulte na aproximação com um roiter id (tradução: judeu vermelho). Mas, se por uma triste fatalidade caíres nas garras de um deles, procure logo outro roiter id.
Algumas semanas depois, o jovem foi procurado por um agenciador de casamentos que informou ter encontrado uma noiva formosa, de família honesta, culta e prendada. David, muito interessado, indaga:
- Eo dote?
- Está combinado que será de mil coroas e terás, ainda, dez anos de “kest”.
Esclarecimento: o kest é um costume tradicional entre os judeus, onde o pai da noiva concede ao genro a permissão de viver, durante um tempo, em sua casa, sem qualquer despesa. Em geral, varia de um a três anos.
Para um jovem egoísta e pouco inclinado ao trabalho, como era o caso de David, dez anos de kest era uma oferta irresistível. A cerimônia do noivado foi marcada para alguns dias depois. Ao ser levado à presença da noiva, David ficou maravilhado. Ela era graciosa, esbelta e cheia de vida, e os dez anos de ketz emprestavam-lhe maior beleza. Porém, dolorosa foi a surpresa ao ver pela primeira vez o futuro sogro. Pela cor dos cabelos e as sardas no carão avermelhado, era claro que o velho era um roiter-id. Invadido por grande inquietação, lembrava dos conselhos do pai. Mas o que fazer? Sua palavra estava dada! Ademais, diante dos dez anos de kets, desapareciam todos os argumentos contrários.
O enlace nupcial se realizou e o jovem passou a viver com a esposa o período de kest. Mas, desconfiado, David pensava que aquele judeu vermelho devia estar lhe preparando alguma peça. Provavelmente o trataria de forma tão vil e humilhante que ao fim de dois ou três meses seria forçado a procurar outro pouso e trabalho.Para seu espanto, entretanto, seu sogro mostrava-se delicado e afetuoso, dispensando-lhe tratamento principesco: pratos saborosos, passeios agradabilíssimos, roupas finas e presentes valiosos. Pensou, então: "Meu pai não tinha razão".
Passados alguns dias, o velho roiter-id chamou o genro e com ar sério interpelou-o:
- És feliz na tua nova situação de homem casado e chefe de família?
- Incomparavelmente feliz! – confirmou o jovem com espanto.
- Se é assim, o teu kest está terminado! – disse gravemente o sogro.
- Terminado meu kest? – protestou David atônito – Mas estou casado há pouco mais de uma semana. Como pode ser isso?
- Nada mais simples – respondeu o sogro, irradiando antipatia – Estás casado há dez dias. Como bem sabes, no livro dos provérbios consta a sentença: "Quando um homem é feliz, um dia vale um ano”. Logo, estás casado há dez anos! Amanhã levarás tua esposa para a tua residência e deverás procurar um emprego.
David quis argumentar, mas o sogro manteve-se intransigente e não quis reconsiderar.
O jovem não se conformava com a idéia de ser obrigado a trabalhar para viver, nem com a situação. O sogro tinha sido indigno. Prometera-lhe dez anos de kets e reduzira esse prazo para dez dias. Era um grande velhaco! Soube transformar um simples provérbio em lei social! “Meu pai tinha razão”, pensou David. “Fui imprudentenão seguindo seus conselhos”. E recordando-se da segunda parte do conselho paterno, foi no mesmo dia procurar um seu conhecido, também judeu vermelho, e pediu-lhe que indicasse um meio de tira-lo dessa situação crítica.
O inteligente roiter-id, após ouvir o minucioso relato, respondeu não ver dificuldade na solução do caso. O jovem deveria ir, no dia seguinte, à casa do sogro e se seguisse suas instruções, sairia vitorioso.
No dia seguinte David chegou à casa do sogro e tendo nas mãos um exemplar da Torá, falou com tom teatral:
- Por motivos muito graves sou forçado a vir á sua presença. Vou me divorciar!
A palavra divórcio para uma família judaica representa uma grande desgraça. O velho protestou:
- Estás louco, rapaz! Bem sabes que o divórcio só pode ser obtido segundo a Lei de Moisés. Com que justificativa pretendes golpear minha família com essa nódoa infamante?
- Como o senhor mesmo declarou e provou, vivi em sua companhia dez anos de kest. De acordo com o Livro da Lei de Moisés,a Torá, se uma mulher não concebe ao fim de dez anos, o marido pode requerer o divórcio. Estou casado há dez anos e não tenho filhos. Portanto, segundo a Lei, tenho o direito de repudiar minha esposa!
- Que brincadeira é essa, meu filho! – disse o roiter-id, abraçando amavelmente o genro – Fizeste mal em levar à sério meu gracejo sobre o tal provérbio. Fica o dito pelo não dito. Se eu prometi dez anos de kest é certo que poderás viver todo esse tempo em minha casa. Jamais deixei, meu filho, como bom judeu, de cumprir com a palavra dada.
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