Este mito está seriamente relacionado às questões sociais. Se ele é verdadeiro, isto significa o mesmo que dizer que
os sem-língua não têm o instrumento necessário para ocupar um bom posto na pirâmide social. Significria também refletir que necessidade haveria de professores de português para ensinar. Era melhor que eles ocupassem cargos administrativos e de chefia na política e na economia.
Além disso, existem empresários e fazendeiros que não tendo instrução suficiente, não estariam nas a posições sociais e econômicas que ocupam. E siguramente ninguém se atrave a corrigir a fala ‘errada’ dessas pessoas. Por outro lado também existem pessoas em postos públicos ocupando cargos de que não seriam merecedores, pois têm dificuldade não só com a gramática, mas ‘pecam’ em várias outros aspectos da comunicação e da expressão oral e escrita.
Ensinar a norma culta não vai mudar a situação de milhões de cidadãos que vivem a margen social, sem usufruir dos seus direitos, morando em áreas onde as politícas públicas não chegam e sendo excluídos de uma
sociedade onde as diferenças sociais são discrepantes.
As variações linguísticas são um fato real, e o não reconhecimento delas é uma das causas das injustiças sociais. Enquanto esses milhões e pessoas não tiverem acesso à educação de qualidade e também a bens culturais e tecnologia, não é a gramática que vai solucionar a situação.
A ascensão social no nosso país tem uma profunda relação com a origem, ou seja, pode-se observar que e geral, os que detêem o poder são na maioria homens, brancos, heterossexuais, nascidos/criados na porção Sul-Sudesto do país, e os da região norte são de famílias oligárquicas feudais.
Na discussão destes mitos cabe salientar sempre que existe uma estreita relação entre língua e política, logo, não pode haver reflexão neste sentido sem se levar isto em conta. Os mitos sobre a língua e suas normas cultas alimentam a pior praga que pode nascer em qualquer sociedade: a injustiça social.