O professores e pais de alunos defendem que é a gramática a responsável pelo domínio do padrão culto da língua. Alguns
pais de alunos fazem questão que os filhos aprendam nas escolas exatamente o que eles próprios aprenderam quando eram estudantes. Para eles, sem os pontos da gramática, nada feito!
Este mito não pode ser verdade. Grandes escritores como Rubem Braga e Carlos Drummond Andrade são avessos aos ‘mistérios’ da gramática, e têm até crônicas e poesias a respeito disso, como escreveu Drummond em “Aula de Português”.
Segundo Celso Pedro Luft em Língua e liberdade, “Um ensino gramaticalista abafa justamente os talentos naturais, incute insegurança na linguagem, gera aversão ao estudo do idioma, medo à expressão livre e autêntica de si mesmo”. Os alunos se tornam desconfiados diante da premissa de que sem a gramática não conseguirão se espressar melhor. Ele não é bobo.
Grandes obras como A Ilíada e a Odisséia, escritas no século VI a.C, não dispuseram da gramática como referência. Essas obras influenciam a literatura e as artes até os dias de hoje. Os diálogos de Platão com descrições fascinantes da alma humana, em qual gramática ele fundou seus escritos? Nenhuma.
A gramática existe para fixar regras e padrões, mas não consegue exercer o controle sobre as manifestações linguísticas naturais, já que estas são decorrentes de uma vivacidade e desenvolvimento próprios. A gramática atualmente se assemelha mais a um mecanismo que quer ter poder e controle sobre os que não falam de acordo com as normas da
língua culta.
Os autores afirmam frequentemente que suas gramáticas têm por objetivo se basear na norma culta. Mas para saber o que é essa norma deveríamos fazer estudos avançados usando recursos da tecnologia atual disponível, acompanhando os processos de desenvolvimento da língua e descrevendo-a tal qual como ela é hoje. Essa norma a que eles se referem está vinculada ao ideal linguístico dos séculos passados.
Não existirá nunca a uniformidade nos padrões da língua, pois, ela é escrita e falada por sere humanos, que são diferentes uns dos outros. A língua existe mesmo que não existe a gramática, assim como a terra surgiu, e em algum momento não houve o ser humano para descrevê-la ou legitimar a idéia de que era redonda.
A gramática normativa estará sempre atrasada em relação à língua, que é um fenômeno dinâmico e expressão do poder social. A gramática é necessária para ajudar em certos aspectos, mas não é a fonte de geração de bons comunicadores como pregam os defensores da norma culta.
Eis alguns autores competentes que podem explicar muito bem sobre os mitos criados em torno da língua: Sofrendo a gramática, de Mário Perini, Por que (não) ensinar gramática na escola, de Sírio Possenti, e Língua e Liberdade, de Celso Pedro Luft. A partir destas leituras somos capazes de compreender melhor sobre os mecanismos de exclusão impostos pelas normas gramaticais, e nos proteger melhor deles.