Sabemos quanto a linguagem é importante, pois tudo que fazemos é regido por ela,
desde um simples gesto, conversa informal, formal, etc. Também é sabido de sua forma multifacetada, e, por isso mesmo sua compreensão somente se efetua no
enunciado. O enunciado reflete a verdadeira condição de uso, como:
conteúdo, estilo e sua construção composicional. Nele podemos perceber o que realmente o falante quer expressar. Esses três elementos citados são inseparáveis do enunciado.
Mas o que é enunciado?
Vamos começar por Saussure, com seu
método estruturalista, para ele a
linguagem era dividida em
língua e fala, mas ele não se preocupou em estudar a fala, quem teve essa preocupação foi Mikhail Bakhtin.
Para Bakhtin, o homem é um ser sócio-histórico, isso quer dizer que o estudo da linguagem só é possível na interação, assim, ele critica essa separação de Saussure, e afirma que a análise da linguagem não pode ser realizada separando-a do sujeito. Portanto, para Bakhtin o estudo da língua só acontece no enunciado, quando realmente há interação entre eu e o outro.
Assim afirma Bakhtin,
O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana. Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo <...> Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso. (Bakhtin, 2006, p. 261)
Vale referir, sobre a heterogeneidade do gênero discursivo, pois sua diversidade é tão grande quanto a possibilidades de mudanças da humanidade, em consequência dessa heterogeneidade é difícil definir a natureza geral do enunciado. Mas existe uma diferença entre gêneros discursivos primários e gêneros discursivos secundários.
Os gêneros discursivos secundários são os romances, dramas pesquisas científicas de toda espécie, etc.,. Eles aparecem nas situações de comunicação mais complexa, que exigem mais rigor e formalidade, ou seja, tem uma estrutura mais elaborada, predominantemente, o escrito. No processo de construção desse gênero mais preparado há incorporação de diversos gêneros primários. Dessa forma, acontece uma transformação desses gêneros primários e eles adquirem uma formação especial para fazerem parte do gênero secundário.
A respeito dos
gêneros do discurso, o autor diz que todo enunciado, seja oral, escrito, seja primário, secundário, ou qualquer campo da comunicação discursiva é individual, e por esse motivo reflete a individualidade do autor, ou seja, notamos o estilo individual do autor em seu enunciado.
É certo que nem todo enunciado é permitido o estilo individual do autor, Bakhtin diz que na grande maioria dos enunciados essa individualidade não é permitida, que o estilo é um componente muito importante, porque integra a unidade de gêneros do enunciado como seu elemento.
Então, para Bakhtin:
Os enunciados e seus tipos, isto é, os gêneros discursivos, são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem. Nenhum fenômeno novo (fonético, léxico, gramatical) pode integrar o sistema da língua sem ter percorrido um complexo e longo caminho de experimentação e elaboração de gêneros e estilos. Onde há estilo há gênero. (BAKHTIN, 2006, p. 268)
Em virtude do exposto a respeito do enunciado, cabe agora fazermos uma distinção entre enunciado, palavra e oração.
Bakhtin menciona que,
Oração é um pensamento relativamente acabado, imediatamente correlacionado com outros pensamentos do mesmo falante e, no conjunto do seu enunciado; ao término da oração, o falante faz uma pausa para passar em seguida ao seu pensamento subsequente, que dá continuidade, completa e fundamenta o primeiro. (BAKHTIN, 2006, p.278)
Quanto à palavra, Bakhtin fala que enquanto unidade da língua a palavra é neutra, consequentemente pode-se dizer que qualquer palavra existe para o falante em três aspectos: como
palavra da língua neutra e não pertencente a ninguém: como
palavra alheia dos outros, cheia de ecos de outros enunciados; e por último, como
minha palavra. A partir do momento que faço uso da palavra em uma situação determinada, num contexto próprio, nesse instante ela possui o estilo individual do autor, ou do falante.
Dessa maneira, a palavra surge da realidade concreta, nas reais condições de uso, isso também vale para a oração. Ou seja,
enquanto unidade da língua tanto a frase quanto a oração não diz nada, são neutras. Como menciona Bakhtin (2006, p. 296) “A oração enquanto unidade da língua possui uma entonação gramatical específica e não uma entonação expressiva. <...> A oração só adquire entonação expressiva no conjunto do enunciado”.
Logo, o elemento expressivo é uma peculiaridade muito importante da linguagem e está somente no enunciado, e o autor faz uma alerta que para o enunciado existir deve-se levar em consideração o antes e o após, ou seja, ele tem que ser visto com ecos e ressonâncias de enunciados dos outros. Então, por mais monólogo que seja o enunciado, sempre traz nele uma resposta de algo que já foi mencionado sobre aquele objeto. Bakhtin diz que a nossa própria ideia surge da interação dos pensamentos dos outros.
Outro aspecto interessante é o direcionamento, isto é, temos que levar em consideração o destinatário, até que ponto ele conhece o assunto, isso é necessário para que possa ocorrer a total compreensão do assunto, que possua um real entendimento do enunciado. Na falta dessa confiança é impossível entender o gênero ou o estilo do discurso, como afirma o autor.
Veja outros artigos referente a esse assunto: htt://keylapinheiro.blogspot.com/