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Shvoong Home>Livros>As FLORES DO MAL NOS JARDINS DE ITABIRA

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As FLORES DO MAL NOS JARDINS DE ITABIRA

por : magnus2    

Autor : Gilda Salem Szklo

  O que os dois poetas podem ter em comum?


Carlos Drummond de Andrade, poeta, cronista, considerado um dos maiores escritores da literatura brasileira do nosso século, autor de uma obra extensa em prosa e verso, publicou o seu primeiro livro de poemas em 1930) Alguma Poesia; colaborou com o projeto modernista de 22; seus textos acompanham, de modo sensível, com lucidez, os impactos, as transformações sociais na história cultural e política brasileira, atravessando vários períodos (...) com expressividade, inúmeros aspectos da história do país.
Baudelaire ocupa, na história da literatura do século XIX, um lugar de destaque. A experiência poética de As Flores do Mal revelou-se, a partir de 1857, progressivamente, no mundo ocidental, a experiência central da modernidade. Sua poesia, sem conteúdo marcadamente social, traz uma reflexão sobre o pensamento burguês na Europa do século XIX.
Um tema preocupava os dois poetas, em momentos e contextos diferentes, que poderíamos chamar de a filosofia do progresso na sociedade capitalista.
 A arte de Baudelaire

O sentimento amoroso e o discurso poético se entrecruzam na poesia de Baudelaire. Como exaltações do espírito, como aspirações de um ideal, a poesia, em um esforço de liberdade, toma o aspecto de um impulso em direção a regiões misteriosas, objeto de nossos pressentimentos e de nossos desejos. Guardando o sopro romântico do século XIX, com afinidades com a antiguidade greco-romana e com o mundo barroco, a poesia de Baudelaire deixa perceber as preocupações de um artista sensível ao espetáculo da vida moderna.
Duas idéias estão associadas em "Elevação" e vão percorrer outros poemas de As Flores do Mal, esta da ascensão espiritual e a do universo "vivo" das coisas que, em aparência inertes, têm uma linguagem, e onde as formas visíveis são os símbolos de uma realidade invisível. Esta constatação nos remete a outra, equivalente, a da confluência de natureza e espírito em Baudelaire, canalizando, por meios diversos, a resistência e a esperança.
Para viver a modernidade,é preciso uma constituição heróica. Balzac era também da mesma opinião. Com ela, Balzac e Baudelaire se contrapõem ao romantismo. Enquanto o romantismo glorifica a renúncia e a entrega, o modernismo transfigura a paixão e a entrega. 
Quadros Parisienses "Apogeu e Decadência do Segundo Império. 
A imaginação baudelairiana compõe o quadro mais radiante de fantasmagoria da civilização capitalista. Baudelaire recriou, com a força da estética do "sobrenaturalismo", a cidade de Paris, da segunda metade do século passado, na arquitetura e nas personagens das suas galerias, na sua ambiência e na apreensão desse mundo pelos seus habitantes e cronistas. 
Com muita influência da pintura e da fotografia, sua visão poética em quadros, fixada em objetos, em indivíduos, em paisagens, em crepúsculos, decompondo os espaços, reconstituindo- os sensorialmente, projeta imagens contrárias que se refletem, inquietantes, das quais o sonho que as criou resplandece de si próprio, põe a irrealidade acima do real.

Drummond em seus versos

Em seus versos, meio crônicas de uma época, o passado emerge numa rede de contradições, com seus mitos, fantasmas, com suas lendas, com suas dores, seus prazeres, recompondo o quadro infantil e humano do poeta mineiro.  
Assim como Baudelaire, Drummond também é um colecionador de cacos. Ambos viajam no tempo e no espaço, dão vida ao seu passado, perdem-se nos restos de coisas e almas e, ao longo dos subúrbios, das avenidas e das ruas, em meio à multidão, desvendam mundos na recordação de seres, de objetos, de fatos pretéritos, sensações da vida vivida e revivida pelo encantamento da palavra artística. 
 O ritmo da modernidade dá forma às cidades desde os anos 30, no Brasil. Como Baudelaire, no século XIX, Drummond realiza a sua excursão alegórica ao século XX. Descreve o nascimento do capitalismo industrial, assim como os encantos da vida moderna no Terceiro Mundo. Se, para Baudelaire, Paris é a cidade escolhida, para o poeta mineiro será o Rio de Janeiro. Nos dois, encontramos o mesmo deslumbramento e uma percepção crítica da realidade. 
 A poesia das ruas, na sua dimensão humana e feminina, está nos poemas e crônicas de Drummond assim como nos poemas de Baudelaire. A rua em todos os recantos - rua para se ver, para se percorrer, andar como em peregrinação. Um aspecto interessante, que observamos nos dois escritores, é o prazer que eles sentem de andar a pé (...).
 Em Drummond, assim como em Baudelaire, encontramos o mesmo deslumbramento pelo símbolo complexo da cidade, através do qual se misturam realidade, desejos e fantasias. Junto com as cidades reais estão as cidades idealizadas pelos poetas: as cidades de dentro, as cidades de fora; as cidades perdidas em pensamentos. Escondem desejos, escondem medos. As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos. 
Correspondência entre os dois poetas:
 
• código musical, configura-se como verdadeiro tropo (instâncias metafóricas e a sinestesia, que pode dar o tom das correspondências entre as artes);
• busca de um vínculo comum entre as diversas artes;
• o homem e a natureza: necessidade de liberdade;
• imagens e sensações, tomadas do inventário de lembranças;
• poeta-artista, capaz de desvendar realidades desentranhada do mundo sensível e comunicação com o mundo sobrenatural;
• concepção hermenêutica da linguagem poética;
• repertório de analogias humanas e divinas;
• Interpretação divina do ato criador.
Referência:
SZKLO, Gilda Salem. As flores do mal nos Jardins de Itabira: Baudelaire e Drummond. Rio de Janeiro: Agir, 1995. 178p. 
 


Publicado em: abril 16, 2009
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