O estudo das armas de fogo se constitui objeto específico somente a partir da década de 1960, esse estudo acarretava em um
melhor conhecimento das relações comerciais entre europeus e
africanos. No entanto a questão não pode ser dissolvida nas operações de caráter geral, as operações ideológicas e comerciais ligadas às armas de fogo exigem estudos específicos.
- Armas-comércio-poder: observações preliminares A arma de fogo não constitui fator decisivo nas estruturas ideológicas e políticas na África, mas a importância que representava nas sociedades não pode ser descartada. No entanto, essas armas não chegavam somente através dos europeus, havia também participação muçulmana no norte africano.
A historiografia divide em dois períodos a utilização de armas: 1) utilização de arco e flecha, que frente as armas européias tinham menor capacidade mortífera. 2) A introdução de armas de fogo provocou desequilíbrio nos combates, levando os diversos grupos reverem suas estratégias de guerra.
As armas de fogo têm papel central no comercio de
escravos limitando-se até o século XIX a locais próximos a costa. Sua eficácia permitiu o aumento do número de escravos mandados para as plantations americanas. Além disso, o número de marfim comercializado aumentou consideravelmente com a introdução da arma de fogo.
Com o aumento das armas em território africano houve também uma alteração nas relações de poder local, apesar desse uso não poder ser generalizado a todos os grupos africanos, seja por recusa ou por restrição ao uso por parte estratégica.
- Os imbangalas e quiocos face às armas européias Os imbangalas e quiocos têm mesma origem mítica nos Lundas centrais, no entanto, cada um se estruturou de uma maneira diferente. Os primeiros controlam a margem e as terras a leste do rio Kwongo e impedem que os quiocos cheguem a zona de comércio com os europeus.
A região de Kwango era estratégica pois era onde se cruzavam as rotas comerciais com o império lunda, principal “produtor” de escravos para o tráfico do XVIII e XIX. Até 1840 a hegemonia na região era imbangala, somente após o desenvolvimento do comércio “legítimo” que os potugueses tem contatos significativos com os quiocos.
- Kasanje O reino de Kasanje é uma organização centralizada que controla as aldeias matrilineares, as quais constituem a base desta nação no interior angolano. A figura do Jaga representa o poder imbangala na região, através das guerras adquirem escravos. Além das guerras, conseguiam escravos a partir de trocas de sal com outros grupos. A venda de escravos e aquisição de armas de fogo era controlada, a obtenção de espingardas era mais utilizada como um bem de prestígio para demonstrar o poder do que para armar exércitos. A hegemonia dos imbangala na região entra em crise na metade do XIX com o fim do monopólio português e o aumento do comércio de mercadorias legítimas.
- A nação quioca A partir da segunda metade do XIX tem-se a “flecha quioca”, momento em que esse grupo se destaca no quadro hegemônico da região. Essa política é conseqüência do reordenamento estrutural da sociedade quioca, as mulheres passam a ter papel fundamental na organização das atividades econômicas.
No último quartel do XIX pedem ajuda aos portugueses e conseguem libertar-se do império lunda, após várias tentativas. Nesse contexto, a caça para obtenção de marfim se intensifica com o aumento da aumento da procura do produto pelos europeus. O que antes era feito apenas com instrumentos tradicionais passa a ser operado com armas de fogo, mas não significou necessariamente com o fim das armas tradicionais para a caça.
- As armas de fogo utilizadas como bens de prestígio As armas européias não substituíram as armas tradicionais africanas por completo, elas foram incorporadas e utilizadas de maneiras distintas, de acordo com os grupos que as adquiriam. Importante salientar que as armas de fogo fornecidas aos africanos eram de pior qualidade, colocando-os em desvantagem técnica. Além disso, os objetivos africanos numa determinada guerra eram distintos dos europeus, elas são muito mais uma demonstração de poder dos chefes do que qualquer outra coisa.
- As armas de fogo utilizadas como instrumento de trabalho Para os quiocos as armas de fogo têm utilidade para a caça do elefante, o que os leva a obter uma grande habilidade em manipulá-las, repará-las e houveram ainda tentativa de fabricá-las, atribuindo a elas um papel econômico. As armas permitem aos quiocos diminuírem a dependência em relação dispensam a aquisição de mercadorias caras, garantem o prestígio a nível regional e explicam a forma de assimilação da lazarina no processo produtivo. Elas têm formas diversas de integração ou de rejeição nas sociedades africanas, seja como objeto de restígio ou como objeto de trabalho.