Um soco no estômago! Uma prova de fogo às crenças e aos pensamentos mais íntimos de qualquer leitor,
além de ser um demolidor de muros que se atreve a nos levar a questionar a forma como enxergamos as pessoas que estão a nossa volta e a nós mesmos. Os contos do livro “100 Histórias Colhidas na Rua”, do paulistano Fernando Bonassi, não nos deixa esquecer que o ser humano é capaz das maiores atrocidades e ao mesmo tempo das atitudes mais belas. Bonassi nos apresenta a uma realidade violentamente atroz em suas várias facetas, em cada frase, em cada palavra escrita. Uma leitura excessivamente difícil - não pela linguagem, mas por seu conteúdo que pode ser indigesto para os despreparados.
As histórias, exclusivamente urbanas, remetem a uma narração direta, seca e sem pena dos pudores de ninguém. Descreve minúcias que constrangem e nos faz lembrar este lado humano que parece estar em algum lugar subterrâneo, mas, que na verdade está na superfície, mais próxima do que se imagina. Por mais que tentamos ignorar ou correr, não há como fugir. Um desfile de pessoas com sentimentos em ebulição constante. Todos compondo um mosaico caótico e agressivo, permeados de seres transbordando vícios e virtudes. Personagens que povoam esta radiografia densa e vibrante de histórias que podem acontecer em qualquer grande centro urbano do mundo.
Penso que não há como ler os contos e ficar indiferente ao que nos é mostrado, até porque “100 Histórias...” nos guia para um clima incômodo - quando muito, claustrofóbico e violentamente real.
O livro escrito em 1996 merece ser conhecido e entendido. Fernando Bonassi tem vasta experiência com as letras e migrou também para a sétima arte. Como roteirista assina diversos filmes conhecidos do cinema nacional como “Os Matodores”, de Beto Brant, “Castelo Rá-tim-bum” de Cao Hamburg, “Cazuza – O Tempo Não Pará” de Sandra Werneck e Walter Carvalho, “Cabra Cega” de Toni Venturi, entre outros.