Berkeley faz uma crítica a Locke no sentido de que este afirma que as qualidades primárias deveriam poder ser percebidas diretamente e imaginadas de modo isolado. Berkeley demonstra que as qualidades primárias só podem ser pensadas juntamente com as qualidades secundárias. Berkeley afirma que, por exemplo, as cores, extensão, figura e movimento podem ser percebidos de modo distinto por distintos homens, porquanto os sentidos não sustentam a distinção entre qualidades primárias e secundárias. E, já que elas não poderiam ser sustentadas de outra maneira, elas são inaceitáveis. Assim, Berkeley constata que não há fundamento epistemológico possível para a distinção entre qualidades primárias e secundárias; o homem só pode perceber as coisas e nada mais. Então, só se pode falar nas percepções ou, em última análise, pode-se falar, também da existência de objetos não percebidos atualmente.
Embora Berkeley tenha criticado Locke, ele, ainda, tem influências da filosofia tradicional, porquanto se preocupa com diversas questões metafísicas, por exemplo, explicar o modo segundo o qual as idéias são produzidas na mente (através da ação de Deus) e a regularidade das percepções sobre a natureza. Portanto, a pesar do empirismo, do ser é ser percebido, Berkeley continua conforme a tradição metafísica. Então, para ele, é Deus que produz idéias diretamente na mente do homem, garantindo, assim, a regularidade de suas percepções, etc.,
No entanto, embora Berkeley, tenha ainda influências da metafísica, ele questionou alguns princípios metafísicos fundamentais: os da substância material e das idéias abstratas.
Um dos objetivos de Berkeley era negar as afirmações dos céticos. Neste contexto, ceticismo consiste em uma desvinculação da filosofia em relação aos sentidos; priorizando, assim, a razão. Para endossar isto, a constatação de erros dos sentidos contribui para a crença de que esses têm uma suposta deficiência; isto tudo faz como ceticismo encontre um campo fértil para as suas assertivas, ampliando-se, em virtude disso, para todas as questões filosóficas. Este tipo de fato é o que Berkeley chama de ceticismo genérico. Assim, o ceticismo não só permanece no âmbito do conhecimento sensível como, também, amplia-se para o âmbito racional, porquanto a razão, ao tentar corrigir os erros dos sentidos, ela não o consegue, pois ao se desconfiar do sensível, generaliza-se a desconfiança. Deste modo, é o ceticismo genérico que Berkeley refuta, pois para os céticos não se pode ter confiabilidade em nenhum saber como: a metafísica, a filosofia natural, a matemática, a moral, a religião, e nem no conhecimento do espírito.
O problema seria: a filosofia separou indevidamente o ser das coisas do seu ser percebido. A afirmação de Berkeley, ser é ser percebido, tenta corrigir isso. A separação do ser das coisas da percepção que se tem delas pressupõe a doutrina das idéias abstratas. Apenas constatar que o ser das coisas reside na percepção que se tem delas não basta; é necessário, também, erradicar a teoria das idéias abstratas, porquanto, se assim não o for, sempre vai haver a separação entre ser e ser percebido, pois se a existência das coisas não decorresse da percepção, vai-se continuar, ainda, com a tese das idéias abstratas como, por exemplo, a extensão abstrata ou movimento abstrato como forma de explicar a noção de matéria ou substância corpórea.
A doutrina de substâncias extensas depende da doutrina das idéias abstratas.
A noção de substância material é relacionada à doutrina das idéias abstratas. A noção de substância material é fonte inesgotável para o desenvolvimento do ceticismo.
Se a doutrina das idéias abstratas consiste na fonte última de um ceticismo generalizado, a doutrina materialista será responsável pelo ceticismo em um tópico muito específico, o da existência e da realidade das coisas sensíveis. Todas as ciências são presas fáceis do ceticismo, uma vez que se admita uma existência externa absoluta; pois, tendo-se aceito essa existência, os argumentos céticos tornam-se imediatamente fortes, de fato decisivos. Berkeley mostra como o imaterialismo, que recusa essa existência externa absoluta, protege as várias ciências do ataque do ceticismo.
Berkeley afirma que o conhecimento que se tem é aquele das idéias e não aquele dos fatos, onde o uso do termo idéia significa tudo àquilo que é objeto imediato da mente; as sensações impressas nos sentidos são chamadas de idéias e as coisas sensíveis de coleções de idéias; então, as idéias são equiparadas aos objetos do conhecimento. Assim, o conhecimento é definido como algo que é feito das sensações, isto é, a mente percebe as sensações e as relaciona, pois não há percepção do nada; só se percebe a partir das sensações. Portanto, Berkeley emprega o termo idéia com o sentido de tudo o que existe. Ele afirma que o que existe é somente o que se percebe. Assim, a substância material é desfeita, porém, Berkeley continua com a concepção da substância espiritual, onde, para ele, o homem é aquilo que pensa, conforme as suas viv
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