“No fundo, no fundo” (conto) –
Humberto Mariotti
Resumido por
Lual Apesar dos setenta e cinco anos a
Mulher ainda é relativamente forte, lúcida e razoavelmente ativa. Supervisiona as tarefas domésticas rotineiras com eficiência: o desempenho da arrumadeira, da cozinheira (a empregada), do
chofer. Quer tudo em ordem.
Num ponto alto da cidade, encontra-se a casa que da janela, olha os telhados, algumas ruas e a chaminé da fábrica. Depois, pega o seu material de bordados e de forma rápida e ágil, com linhas e cores vai criando uma beleza artesanal.
Aos oitenta e um anos, o Homem sofre de câncer no estômago. Um mal que apareceu alguns meses, quando se manifestaram: a inapetência, indisposição, má digestão, emagrecimento progressivo... A Mulher ficou preocupada, mas ele não atentou para a gravidade do problema.
Consultou um médico e, sucessivamente, fez uma série de radiografias e exames. Veio o diagnóstico. Inconformado, com um brilho diferente nos olhos, altera a voz: “Câncer, não é?”. Sentia-se morrendo, era o fim.
Decidiu tratar-se em casa mesmo, sob os cuidados e carinho de sua esposa.
Marido e mulher passam a ocupar quartos separados. A
cama com os lençóis sempre branquíssimos e impecáveis, porque o doente, criatura de inabaláveis princípios, não se deitava sobre ela, mas embaixo dela. O médico já habituado, metia-se embaixo da cama com os medicamentos e os instrumentos indispensáveis.
Entre um cuidado e outro com o marido, diariamente, a Mulher volta à janela e aos seus bordados: sua terapia ocupacional. Certo dia, vê da janela, um casal fazendo amor. Quem seria? A sua própria imaginação? Lembranças do passado: seus corpos, seus calores, suas secreções úmidas e pegajosas? Talvez, por causa da
chuva suave desfiando o seu pranto sobre os telhados, acalmando a tarde. Lembra-se do câncer do marido, mas não quer se perturbar com isso agora, e procura ver as crianças pedalando suas bicicletas, alguns bastos bigodes com seus belos músculos, paletós de tecido grosso e quente, as grades escuras do jardim, risadas no corredor, hálito de conhaque do bom, aroma de charutos fortes, perfumes em lenços de cambraia, a flor seca nas páginas do missal, bilhetes e cartas pelas gavetas... Lá fora, a chuva molhava, molhava tudo.
As primeiras metástases informam que o câncer já se espalhara por todo o corpo. Agora, era cuidado por dois médicos.
Logo que comunicam a morte iminente do Homem, dois comerciantes de antiquários lhe fazem uma visita. Ficam encantados: móveis antigos, tapetes persas, louça inglesa, laca da China, jade e mogno, lápis-lazúli, quadros preciosos, piano e um lustre “art noveau” despertam-lhes constantes exclamações.
Extasiados com tudo, inclusive com a biblioteca, explica o motivo da visita à Mulher e lhe interroga: “... quanto quer por todo o acervo?”. Estupefata, aciona a campanhia, chama o chofer e o
jardineiro e os expulsa dali.
Agora, aliviada, supervisiona os trabalhos da casa. Ouve um ruído, comumente conhecido, vindo do quarto do doente. Os médicos entravam e saíam com suas volumosas malas.
No dia que a chuva parou, o primeiro médico não voltou a aparecer, e o segundo não saiu do quarto dele. Porém alguns
dias após, ele sai com a sua mala e também, não volta mais. Três dias após, observando que a comida levada ao enfermo voltava intacta, resolve entrar no quarto, na companhia do chofer, do jardineiro e das empregadas. Gritam pelo o seu nome sem resposta. Arrastam a cama: um buraco profundo e retangular, uma lápide de mármore escuro com uma cruz e duas datas: 1895 – 1977.
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