9 de
Maio :
Dia de Ascenso
Juareiz Correya
O SESC-Santa Rita, do Recife, inaugurou, no dia 19 de março último, à noite, com teatralização de poemas, música, palestra e lançamento de livro, o Laboratório de Autoria Ascenso Ferreira, espaço criado “para fomentar iniciativas na área literária, além de servir para outras atividades culturais da entidade.”
Em palestra que apresentei, na ocasião, lembrei à diretora da unidade, Sra. Maria Gorete de Lima, e aos convidados presentes, a felicidade do gesto dos dirigentes do SESC de Pernambuco, ao materializar essa homenagem que perpetua a memória do
poeta Ascenso Ferreira no dia-a-dia das atividades educativas e culturais dessa unidade do serviço social do comércio do Recife. É que, como registra Souza Barros, amigo e um dos primeiros biógrafos do poeta, no
ano de 1923, Ascenso Ferreira, convivendo com o próprio Souza Barros, “na Escola de Comércio de Pernambuco, onde ambos, então alunos, reunidos aos professores Manuel Arão, Benedito Monteiro, Cristiano Cordeiro (este, seu colega de trabalho, e que, segundo informação do poeta, o animara a entrar na Escola) e outros, fazem o movimento de emancipação da Escola, até então subordinada à Associação dos Empregados do Comércio. Por causa de sua participação atuante na campanha, foi escolhido orador pelo corpo discente, na inauguração da então fundada Faculdade de Comércio de Pernambuco. Não termina, porém, os estudos, preferindo ser “doutor pela boca do povo, doutor de apelido”.
Em seguida, o coordenador regional de cultura do SESC-Pernambuco, o encenador e professor José Manoel da Silva Sobrinho, informou que o SESC nacional objetiva criar diversos “laboratórios de autoria” nas unidades administrativas pernambucanas e brasileiras. Este primeiro, do Recife, o Ascenso Ferreira, é modelo para os futuros “laboratórios de autoria” (que homenagearão naturalmente outros grandes valores das letras locais).
O nome do poeta Ascenso Ferreira é um mote inquestionável para a realização de qualquer iniciativa
cultural pioneira no Brasil. Nada mais lógico um acontecimento como esse na região Nordeste. Ascenso, sinônimo de originalidade na vanguarda do Modernismo Brasileiro, representa bem a modernidade nordestina e continua vivo e atualíssimo neste século 21. Chegou a este terceiro milênio com a sua
poesia “intraduzível” amada pelo seu povo – “os incultos” a quem ele soube revelar a sua identidade cultural –, amada pelos ditos homens cultos, pelos acadêmicos, pelos artistas de todos os gêneros, e pelas novas gerações que, mesmo sem compreender direito as suas evocações e o futurismo amante do passado (o grifo é meu ) sabem valorizar a pureza e “a impureza” da sua poesia. Ascenso é sempre lembrado até mesmo por quem não conhece os seus livros e a sua poesia. E, como bem ressaltava Armando Monteiro Neto, presidente da CNI, na edição de OUTROS POEMAS & INÉDITOS, “quem é que, lendo a poesia de Ascenso Ferreira, não se orgulha de ser pernambucano e tão universalmente nordestino ?”
Quando publicamos, em 2006, pela Panamérica Nordestal Editora, do Recife, com o apoio cultural da CNI - Confederação Nacional da Indústria, o livro OUTROS POEMAS & INÉDITOS, de Ascenso Ferreira, enfatizamos, no seu lançamento, no Gabinete Português de Leitura, realizado no dia 9 de maio (dia do 111o. Aniversário de Nascimento do Poeta), que o Recife estava, a partir daquela data, criando o DIA DE ASCENSO “para homenagear o poeta no seu aniversário de nascimento e animar, naturalmente, no seu dia, produções intelectuais e artísticas que reverenciem e relevem o nome de Ascenso Ferreira.” Lembramos que a sua figura, muito significativa na poesia pernambucana - e nordestina e brasileira -, da década de 20 à década de 60 do século passado, era a de um poeta singularíssimo que soube, como ninguém, ser erudito e popular em sua criação, E que, por isso, Ascenso Ferreira é um motivo permanente de inspiração para outros poetas e artistas e de estudos e pesquisas de jornalistas, professores e estudantes. Por força disso, a realização do DIA DE ASCENSO, no Recife, em cada aniversário do poeta, deve inspirar a promoção de cursos, concursos, exposições, espetáculos musicais e teatrais, palestras e lançamentos de livros que evidenciarão, para o Recife e para Pernambuco, como a poesia de Ascenso Ferreira continua viva e se projetando para o futuro deste novo século e deste novo milênio.
No ano de 2007, a Prefeitura do Recife, ao criar o Circuito da Poesia, instalando esculturas de poetas importantes em áreas do centro da cidade, fez justiça ao nome de Ascenso Ferreira, que está belissimamente esculturado (tem o mérito também do artista plástico Demétrio Albuquerque) e bem assentado à margem do rio, na Rua da Alfândega, hoje uma área nobre do Recife Antigo, contemplando e sendo contemplado ao longo do Cais do Apolo.
E, agora, neste ano de 2008, a Editora Martins Fontes, de São Paulo, promoverá, sob a coordenação da professora e pesquisadora Valeria Torres da Costa e Silva, no dia 9 de maio (dia do 113.º aniversário de nascimento do poeta) na Livraria Cultura, do Recife, o lançamento da nova edição do livro POEMAS DE ASCENSO FERREIRA (a última edição, já esgotada, foi produzida aqui no Recife, sob a nossa coordenação, pela Nordestal Editora, com o apoio cultural da FUNDARPE/Governo do Estado de Pernambuco, em 1995, ano do centenário de nascimento do poeta).
Está certo o Recife : 9 de maio é o dia de Ascenso. É dia de lembrar, de saudar, de aplaudir, de reverenciar, de publicar, de recitar, cantar, teatralizar e festejar Ascenso Ferreira e sua poesia imorredoura.
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