Escr “Memória Desfigurada” ( conto) –
Jeter Neves Resumido por
Lual A sede – o casarão de tantas janelas, infinitas
telhas com beirais apodrecidos, fachada longa de marcos e colunas azuis, paredes brancas, pedras supostas recobertas de musgos, avencas e samambaias destacava-se numa bela paisagem verde da Mantiqueira.
Hoje, o profundo silêncio, onde outrora habitara senhores de gado, sinhás, mucamas e alegres crianças. Ao invés das negras, mestiças preservando o mesmo tom velado, oprimido, persistente.
A senzala – a morte sediada no seu interior; seu cheiro no ar. Casa marcada de nódoas de sangue, suor, fezes e urina, onde se encontravam: arreios, cangalhas, selas, rédeas, cordas, facão, pás, enxadas, picaretas, botas, chapéus, carro de bois,
etc. Agora, tudo não passam de ruínas.
Assim era a
Fazenda do Caminho Velho.
A capela – semelhante à Matriz de Nossa Senhora do Ó com sua única torre num formato de telhas-aves. Duas
imagens confrontando-se: Nossa Senhora, de um lado, e Cristo do outro. Tudo num belo estilo barroco mineiro, vestígios das mãos mutiladas de Antônio Francisco Lisboa, o aleijadinho.
Vitório, velho retireiro – filho de escravo com muita história de sofrimento e resignação para contar numa linguagem típica do servo do campo, que só conhece os
instrumentos de trabalho árduo, muita miséria e dor.
Sr. Zezinho Ferraz, atual proprietário – sofreu um acidente de cavalo, que atingiu a espinha dorsal,
deixando imóvel seus membros inferiores. Faleceu pouco tempo depois.
Olavinho Ferraz, o jovem empresário – desperta a idéia de investir na fazenda, transformando-a em hotel-fazenda. Ciente da importância cultural daquele patrimônio artístico e histórico, empenha-se na produção moderna, tornando-o num ponto turístico atraente: recupera a senzala com seus instrumentos e alguns móveis – a sala de reuniões noturnas, destinada a jogos, “scotch-bar” , sala de som, etc. Na sede, os aposentos; a rede hidráulica modificada e as instalações sanitárias ampliadas. No saguão de entrada, um mini-museu. Todas as peças (documentos, armas, imagens, etc.), classificadas.
Poderíamos dizer que seria uma forma diferente de valorizar e resgatar um passado. Porém na verdade, tudo é meramente comercial: finalidade lucrativa.
D. Fernão, o personagem-narrador, escriturário dessa Fazenda em 1792 a 1810 provavelmente, diz que seus últimos passos na calma dessas serras, seguem os últimos traços de luz.
“... E um silêncio de trevas se abateu sobre os seres vivos e inanimados deste lugar, deixando os espíritos abúlicos e temerosos...”
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