“O “ causo” das pescarias de Chico Linhada” – Rosana Rios
Resumido por Lual Chico Linhada aprendera a pescar desde seis anos, acompanhando o seu pai, Seu Bié, nas pescarias no
Rio Raso, que marcava a divisa de Findomundo com Semsaída.
Tinha a imaginação muito fértil, estava sempre criando histórias envolvendo rio,
peixes, seres aquáticos em geral.
Às vezes, partia de um fato real, mas aumentava um ponto, criando os “causos”. Por isso era conhecido como o maior mentiroso do mundo. Escolado em dois serviços: pescar e contar mentiras.
Passava a semana lidando na granja e fazendo entregas. Aos sábados, ao romper a madrugada, pros lados da barranqueira do Raso, voltando ao raiar o domingo com um samburá cheinho de lambaris, traíras, peixes grandes e pequenos. Depois de algum tempo, voltava apenas com o material de pescaria: caniço, isca e
Linha de toda a espécie. Seus irmãos criticavam-no:
“ – Ara, Chico, que é do pescado? Não quis vir?”
“ – Pois não sabe que eu ia pegando um baita dum bagre, pra mais de metro?!”
Explicava que a linha havia arrebentado com o peso do tal. Contava um “causo” pra cada
Peixe que não conseguia pegar. E assim, ficou famoso atraindo a vizinhança para ouvi-lo em volta de uma fogueira, bebendo café quentinho altas horas da noite. Contava história de boto que aparecia no Raso em toda Lua Crescente, de traíra mágica com moeda de ouro na boca...
Seu pai vivia triste e constrangido com o filho por causa de sua fama de mentiroso.
Como sempre, saía aos sábados muito cedo rumo ao rio, levando junto ao material de pesca, paçoca, broa de milho e goiabas para matar a fome. Até que num desses sábados, Chico viveu a maior fantasia de toda a sua vida de pescador: Sentou-se à sombra de um ingazeiro e não sabe se adormeceu. Sentiu um puxão forte na linha que o deixou assustado. Era um peixe enorme e gordo. Ainda meio tonto o ouviu falar:
“ – Me adisculpe, seu moço, mas será que não podia me botar de volta no rio?”
E explicou que era preciso fazer isso o quanto antes. Ele havia sido escolhido para a janta da Mãe-D’água e isso só acontecia na mudança da Lua.
“ – Ara, que o sol forte me deixou o miolo mole... Devo de estar azoretado...”
Chico estava orgulhoso de sua pesca e já imaginava o sucesso que faria diante de sua gente. Não deu ouvidos às solicitações do peixe.
Quando menos esperava, viu-se tragado pelas águas num redemoinho, cercado do povo d’água, da raça dos ipupiaras. Era de carne e osso, meio homem e meio peixe, media dois do Chico. Houve um rebuliço, grito de boto, cardume de peixes enroscando-se em volta. Aparecia tudo que é bicho marinho. Sentiu-se perdido.
Por fim, aparece a Cobra Grande, a Mãe-D’água, a dona do rio. Estava furiosa com ele, porque pescara a sua janta: o peixe grande. Chegou a hora de sua refeição, e ela devorou um tipo de planta de fundo de rio. Ficou apavorado. Temia ser o próximo prato. Pediu socorro ao peixe que havia pescado, e ele disse que agora, ele pertencia à Mãe-D’água como todos ali.
No momento em que estava para ser preso definitivamente, deu ênfase à imaginação e soltou os ”causos” para a dona do rio que encantada decidiu libertá-lo. Porém avisou que na Lua Crescente se o pegasse por perto...
Voltou pra Findemundo, com a certeza de que não adiantaria contar aquela verdade, porque estavam acostumados com suas mentiras não iriam acreditar.
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