O romance de Manuel Antônio de Almeida (1854) narra paralelamente a história de Leonardo Pataca, o pai - relatando os seus desencontros e aventuras amorosas - e a trajetória de Leonardinho, o filho, que se tornara
sargento de milícias não pelas suas virtudes (pois durante sua jovem vida apresentou-se como um autêntico vagabundo), mas por intermédio da ajuda de amigos e chantagens. Eles podem ser considerados os primeiros anti-heróis da literatura brasileira, tidos por muitos estudiosos literários como a inspiração de Mário de Andrade para a composição de Macunaíma.
Neste romance, as
personagens são caricatas: pelas observações do
narrador quanto ao ofício e a aparência física comum, os variados tipos populares aparecem e definem seu papel na trama, demonstrando hábitos inerentes ao grupo social a que pertencem. Este fator é tão relevante, que em sua maioria, as personagens não são tratadas pelo nome, mas por seu tipo ou profissão: comadre, parteira, barbeiro...
As personagens são também planas, ou seja, mesmo diante das várias situações vivenciadas que normalmente levariam os seres humanos, em toda a sua complexidade, a adotarem posições diferentes frente à vida, neste caso específico, elas não mudam seu comportamento no desenrolar da história. Pode-se até mesmo dizer que devido aos traços caricaturais, elas se definem por seus comportamentos contínuos, permitindo que o
autor utilize isto como artifício para demonstrar sua visão sarcástica em relação às atitudes dos tipos sociais da época. Podemos citar como exemplo, o comportamento de Leonardinho que, mesmo depois de adulto, continuava sendo travesso, malandro, além de outras características que apresentava desde criança.
Assim, nota-se que, apesar de pertencer à estética Romântica, as personagens aparecem como pessoas normais que se possuem virtudes, também possuem muitos vícios. Por meio disso, pode-se abstrair a ironia do título, pois o romance objetivava na verdade, o registro das memórias de uma
sociedade, com seus hábitos e costumes, e não das personagens que ao longo da narrativa não apresentam nada de grandioso e memorável. É, portanto, um romance histórico de costume que visa estabelecer um retrato da sociedade carioca da época imperial, ilustrando o cotidiano da vida suburbana. Ao retratar a classe média e baixa existente na época, o autor novamente contraria a escola romântica que se preocupava em demonstrar a aristocracia.
Quanto ao tempo, a história se passa no "tempo do rei", tendo-se a partir disso, o tempo do mito ou referencial, uma vez que não é possível estabelecer uma definição cronológica exata. Neste caso, tem-se uma idéia aproximada da época em que ocorrem os fatos, mas não é possível definir-se com precisão o dia ou o ano. O espaço físico apresentado na obra é o meio urbano brasileiro do século XIX. A história se passa no Rio de Janeiro, onde se descreve os seus principais pontos (igrejas, ruas) e também locais à margem da sociedade tradicional, como acampamentos de ciganos e bares.
O narrador de 3ª pessoa é onisciente, pois ele não participa da história. É um observador capaz de saber o que todos pensam e o que ocorre com todas personagens ao mesmo tempo. Por essa razão, consegue narrar, concomitantemente, o que ocorre com pai e com o filho mesmo quando separados. Ele também é intruso, pois demonstra uma certa opinião pessoal quanto às personagens (a vizinha chata, o padrinho coitado, etc.) e quanto à sociedade em que vive, criticando-a através de comparações com a sociedade passada retratada. Mesmo com todos falhas relatadas, a sociedade passada ainda parece ser melhor do que a que o autor vive; esta é uma atitude típica do Romantismo que busca em um passado idealizado, valores corrompidos na sociedade vigente.
A linguagem utilizada é simples e coloquial. Nos diálogos das personagens são reproduzidos exatamente os modos de falar e pensar da época, na tentativa de ser um retrato fiel do povo daquela sociedade. A linguagem aproxima-se da jornalística, o que torna seu texto claro e objetivo. O narrador estabelece diálogos constantes com o
leitor, criando uma atmosfera de cumplicidade, persuadindo a se pensar como ele. Além disso, ele usa destes diálogos com o leitor como um recurso para reavivar a
memória do público sobre um determinado pontos já demonstrado em capítulos anteriores porque, na época, o romance foi publicado em folhetim. Em virtude disso, o autor aproveitou para acrescentar ao final de cada capítulo um certo suspense, instigando o leitor a ter vontade de ler os próximos capítulos.
Quanto às características literárias do período, o romance pode ser considerado como pré-realista, já que foge de certos padrões românticos, como os já acima elucidados. Outras divergências a serem citadas, dizem respeito à idealização do amor e da mulher:
O amor não se configura como a temática fundamental. Leonardinho e Luisinha terminam juntos mais por obra do acaso do que pela busca incessante das personagens para consumação desse amor. O que mantém a proximidade da obra com o romantismo é que, ainda assim, trata-se da vitória do primeiro amor. Quanto à imagem angelical e inacessível da mulher, a própria heroína Luisinha é apresentada, a princípio, como feia e desengonçada, o que contraria descrições atribuídas a Ceci ou Iracema (de Alencar).
Na obra, não há descrições morais detalhadas de nenhuma das personagens na tentativa de exaltar seus valores, pois estas estavam muito longe da aparente perfeição que apresentam os típicos heróis românticos, como as demonstradas por Alencar em seus bons selvagens (nobres, valentes, corteses, etc).
Mais críticas sobre Memória de Um Sargento de Milicias