Ao longo dessa reflexão, o autor levanta alguns dos graves problemas do nosso tempo, sob a égide de “a lógica do horror”,
que, com o avanço tecnológico gera a falta de investimentos sociais e o surto crescimento de miseráveis em todo o mundo. Isso é globalização?
A lógica do horror Comparando a nossa realidade com a do Primeiro Mundo, ainda estamos na idade da pedra. Sem nenhum ufanismo, temos um País fantástico. Aqui não há nevascas, furacões, tornados nem terremotos. Possuímos, praticamente, todos os climas da Terra. E, com imensos recursos hídricos, minerais e vegetais, temos uma natureza pujante e uma das maiores biodiversidades do planeta. Mas, apesar disso, vamos perdendo o bonde da história e continuamos afundados no atraso e na mais vergonhosa
pobreza. Logo, a causa de nossos males ou a culpa de nossas misérias não está no País, mas no homem.
Com uma das maiores concentrações de renda (que não pára de crescer), o Brasil, segundo a Comunidade Solidária, já conta trinta e dois milhões de miseráveis. Sem investimentos sociais, faltam-nos saúde, educação e segurança social. Assim, enquanto o desemprego, as drogas, a AIDS e outras doenças avançam, a corrupção, a criminalidade e a impunidade tomam conta do País. Nas ruas de nossas grandes cidades, já não temos o direito de ir e vir, sem o risco de sermos assaltados e assassinados. Os nossos presídios são masmorras medievais; ao invés de ressocializarem os criminosos, são escolas do crime ou depósitos de homens, enjaulados como bichos, nos porões do inferno. Os nossos índios são, fria e brutalmente, assassinados; e não temos uma política indigenista que mereça tal nome. As crianças e os velhos abandonados são aos milhões e a assistência ao idoso simplesmente não existe. O Brasil é um dos países que mais discriminam, maltratam e marginalizam os idosos, pagando aposentadorias e pensões que nunca atendem às suas necessidades básicas. Mas esses ainda são privilegiados, porque uma grande população de idosos, sem família, moradia, ou qualquer tipo de assistência, ocupação e lazer, não tem outra alternativa senão a solidão das ruas. Da mesma forma, as crianças abandonadas, fora da escola (prostituídas ou submetidas ao trabalho escravo), são uma vergonha nacional e uma violação dos direitos da criança.
Por outro lado, em nome da modernidade, da produtividade e da qualidade total, as máquinas invadem o espaço do homem e milhões de trabalhadores são jogados nas ruas, sem qualquer política compensatória de empregos alternativos. Enquanto isso, a inflação, sentida nos bolsos, já começa a mostrar as suas garras.
No entanto, como se não bastassem tantas misérias, reduzem-se e congelam-se os salários, cortam-se os benefícios sociais e voltamos a uma nova servidão. Na verdade, para a economia (de modelo
neoliberal), o homem já não vale mais nada. Com a ajuda da técnica, a economia pouco precisa dele, a não ser para consumir seus produtos. Com o triunfo da técnica, o homem já não conta, virou sucata biológica, tornou-se ‘paixão inútil’.
Assim, através dessa lógica diabólica, dessa lógica do horror, aumenta-se a opressão e a injustiça, floresce a corrupção, o vício, o crime e cresce a miséria social.
SIMÕES, Rubens Nery. O Fracasso da Civilização Tecnológica. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2001.