Ele era formoso como ninguém o fora e suscitava em público as mais calorosas admirações. Tinha um
olhar que remexia nas almas e abalava os espíritos com uma
vaga de fundo. Por vezes, toda a vitalidade se lhe resumia nessa "luz do corpo", dominadora e
doce. Antemanhã, antes que o sol avermelhasse os montes, ele se encaminhava sozinho ao encontro da solidão, ou contava até doze vezes, num remanso do vale, o número dos seus seguidores. Cabelos ao vento, mal roupado na sua túnica inteiriça, sem bastão de caminheiro, nem bolsa, nem matalotagem, cortava descia o monte Mória até a planura de Esdrelon, ou mais ousadamente ainda, se internava pelos países lindeiros até Tiro e Sidônia. Sempre igual a si mesmo, sem esses saltos de humor que fazem o homem tão irmanado aos ventos. Uma inteligência luminosa, servida por uma vontade robusta. Quando os letrados do seu tempo o procuram emalhar nos seus sofismas, ele responde com simplicidade de criança ou retruca com habilidade de mestre. As três ou quatro tentativas de resistência ou de influxo mais desviador encontram nele uma firmeza de caráter com a qual não contavam os seus contraditores. É alguém em cuja existência cheia de movimento não se pode notar uma só hesitação, tão diferente nisso do comum dos homens, cujo caminho na terra é feito de paradas, desvios, tombos e desfalecimentos. Testemunha da verdade, a
palavra foi-lhe sempre a expressão do
pensamento, sem esses claro-escuros e essas anfibologias onde se amouta a dobreza. Com tal, não temia a ninguém. Não lhe faltava o temperamento de chefe. O prestígio, essa fascinação de um ser sobre o outro ser, demonstrava-o ele a cada instante. Se chama pelos arrais crestados aos revérberos da vaga, estes abandonam incontinente os barcos. Se ameiga o olhar sobre dois moços de Betzaida, logo eles esquecem o pai, no meio dos empregados. Por vezes as multidões o
seguem pelas bordas do mar ou vingam os cabeças da montanha ou se internam perigosamente por desertos e gândaras. E seguem-no abafados no terror. Mas quem era ele?
Os parentes, aos quais talvez estas manifestações de superioridade irritassem, tinham-no apenas por doido. Os conterrâneos, que provàvel¬mente o haviam conhecido no berço e, mais tarde, o tinham procurado na oficina, sabem somente que é operário. Os senhores da lei e da religião são mais rigorosos a respeito. Para eles, o indivíduo em apreço é aprecia dor de iguarias e um degustador de vinhos, violador de tradições, infrator dos sábados ou, pior que isso, demagogo, revolucionário, energúmeno. Na festa das Tendas, por entre os grupos reclinados na relva, o tema do dia é a sua pessoa. A discussão aquece-se porque nem uns nem outros estão perfeitamente de acordo: para estes é um homem bom que não faz mal a ninguém e diz causas que ninguém disse, ungidas com tamanha emoção; para aqueles é um agitador do
povo, perigoso extremista que adula as paixões da plebe. Apenas um lobo do mar, que deixara as redes para segui-Ia, e uma mulher de Sicar, que largava o cântaro ao pé do peço para anunciá-lo, acreditam que ele é o Desejado, o doce Salvador do mundo.
(do livro “A Evolução do Pensamento Antigo")
Mais críticas sobre JESUS