Em “Narrar ou
Descrever?” George Lukács compara as descrições de corridas de cavalos em Naná de Zola e
Ana Karenina de Tostói, e seus significados dentro do texto e do
contexto das obras. O autor considera a corrida em Naná um exemplo do virtuosismo
literário de Zola, por explicitar cada característica de uma corrida de trote, com beleza e sensibilidade, tomando o ponto de vista do expectador. Entretanto, considera supérflua essa descrição, pois não introduz nenhuma informação extremamente relevante ao romance. A supremacia de Tostói sobre Zola, no ponto de vista de Lucács, consiste no ponto em que no romance Ana Karenina, a corrida de cavalo seria fundamental para o desenlace do romance, além de ser narrada sob o ponto de vista do participante. A descrição minuciosa de coisas, de Zola, em comparação à narração de acontecimentos humanos de Tostói, é criticada por traçar o romance como se estivesse pintando um quadro em palavras. Lukács não considera a descrição daquele como uma representação artística, pois sem elementos acidentais tudo é abstrato e morto. Se comparadas a descrição de Zola com a narrativa de Balzac, percebe-se que ambos relatam problemas sociais, entretanto no primeiro estes são descritos apenas como fatos, e no segundo são um drama das personagens. Flaubert, em Madame Bovary, descreve um ambiente com a minúcia da corrida de trote de Zola, descrição esta, apesar de notável nível artístico, desnecessária para a trama. Não há escritor que nunca descreva, assim como os grandes representantes do
realismo, como Flaubert e Zola não renunciaram à narração. A crítica tem como base a transformação da descrição, de um meio de criação artística, em um principio fundamental e único da composição, tipicamente moderna em detrimento do romance do Século XVIII que mal conhecia a descrição. Os autores que primam essencialmente pela descrição tem como característica advirem de uma geração que expressa uma atitude de ódio, horror e desprezo pelo regime político e social do seu tempo, o capitalismo. Ou seja, observadores e críticos da sociedade burguesa. Neste momento o livro transformou-se em mercadoria, a menos que o escritor possuísse uma renda elevada. O autor ainda explicita a influência das experiências pessoais e sociais sobre a obra dos escritores, para que esta possa ser provida das relações inter-humanas, e das ações reais dos homem. Sem essa influência a obra não desperta interesse. A descrição é considerada um aparato destinado a encobrir a carência de significação épica. A experiência humana do capitalismo, caracterizado pela crueldade da vida social e do rebaixamento do nível de humanidade, resultou no método descritivo, aplicado também por escritores notáveis. A literatura descreve a decadência da vida social. Assim a descrição nivela todas as coisas, inclusive os seres humanos, coisificando-os. Em contrapartida, a narração distingue e ordena, oferecendo uma quantidade de pormenores cuja significação o leitor pode não avaliar em princípio, elementos que serão esclarecidos no curso da narração, através de diversos aspectos do entrecho, que o autor, onisciente, fornece significados especiais a eles. Na descrição todas as coisas tornam-se presentes,descritas da forma que são vistas, conferindo-lhes uma equivocada presença espacial e temporal. O
naturalismo é caracterizado pela representação de homens medíocres, portadores de uma vida superficial, espessada pela descrição. Assim o homem é rebaixado ao nível das coisas inanimadas. O centro de interesse é o dinheiro ou outras coisas materiais. Não há relações profundas entre os homens, apenas superficiais.A narração estimula uma grande variedade de formas de composição, enquanto a descrição acarreta monotonia compositiva.Com relação à crítica da coisificação do ser humano (dos naturalistas), podemos considerá-la rígida demais, ou até ingênua. Pois o autor pode ter como objetivo ironizar o mundo capitalista que assim considera o ser humano: uma coisa.A narração hierarquiza o acessório e o essencial, e a descrição revela tudo, gerando falsa contemporaneidade ( para Lucács). Entretanto, essa nivelação não é real. O acessório e o essencial são nivelados pois o primeiro tem função preponderante no mundo capitalista e é isto que os autores naturalistas, como Zola, procuram descrever, já que buscam criticar a injustiça social capitalista que torna o homem um animal consumidor.Qualquer autor utiliza-se da descrição, esta é essencial, e ao contrário do que Lucács escreve, ela acrescenta muito a narrativa, tornando-a rica de detalhes, e não exaustiva e monótona. Assim como grandes narradores como Balzac, um autor naturalista que prima pela descrição também demonstra conhecimento de mundo, e seu estilo não é puramente estético, mas sim uma ferramenta de crítica.Lucács justificou que compreende o contexto literário, social e político da época, mas considerou que compreender não é perdoar, querendo dizer que essa crítica à contemporaneidade típica dos autores naturalistas é compreensível, porém não justificável. Ora, se o conhecimento de mundo é considerado essencial e os autores vivem no mundo capitalista, cabe a eles criticá-lo ou apoiá-lo, e é através da descrição que eles o fazem. Nesta época houve um aumento da relação dialética entre literatura e sociedade.
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