Sargento Getúlio é uma história de aretê (do grego areté, virtude, bravura), diz o autor. Uma história de valentia, coragem,
bravura, heroísmo. Getúlio Santos Bezerra protagoniza a história de aretê; espera-se encontrar nele o herói capaz de tanta bravura. No entanto, como enxergar nessa
personagem os requisitos imanentes ao herói, se ele é um pistoleiro-matador-assassino? Mais do que isso, defensor de um poder que é mandante dos crimes, em detrimento de seu próprio povo, de sua própria origem? Pior ainda, um poder que o abandona ao menor imprevisto? Parece-me que a resposta beira esse abandono.
Uma
narrativa é um sistema em que predomina algum tipo de herói. A chave da narrativa, seu princípio de organização, é o herói.
O herói, dominante do sistema, está presente em todos os elementos da narrativa, mas, por sua vez, resulta de todos eles. Emana do herói um poder secreto que impera em toda a narrativa. É determinante no decorrer dos fatos, com suas ênfases e seus escamoteamentos. O sargento Getúlio Santos Bezerra é o herói de Sargento Getúlio. Tem algumas semelhanças e dessemelhanças com o herói mítico, mas nem por isso deixa de ser o herói dessa narrativa. As narrativas épicas são narradas em terceira pessoa. Começa aí urna diferença (certamente proposital por parte do autor), pois é o próprio sargento quem narra a peripécia. Tudo que saberemos será pela voz de Getúlio, será o que, para ele, é correto e digno. Toda sua bravura, apesar de nos causar escárnio, é regida por sua determinação. Ele acredita no que faz, defende o poder com unhas e dentes e vê nisso um ato nobre.
O enredo de Sargento Getúlio é simples: Getúlio recebe a incumbência de levar um preso de Paulo Afonso, divisa dos estados da Bahia e Alagoas, até Barra dos Coqueiros, Sergipe. A ordem é de Acrísio Antunes, líder do PSD e, portanto, de Getúlio. Há uma ressalva: o preso, integrante intelectual da UDN, deve chegar vivo. Seguem a viagem no hudso, dirigido por Amaro, fiel companheiro do Sargento. No percurso, Sargento Getúlio conduz a narrativa, explicitando a causa da prisão, as razões que o levam a ser pistoleiro - ele alega que é político -, as vinte mortes de sua responsabilidade, o assassinato de sua mulher, grávida por adultério, seu caso com Luzinete, sua afeição por Acrísio Antunes.
A narrativa é em primeira pessoa, o que deveria promover a identificação entre narrador e leitor. No entanto, esse narrador, sob o ponto de vista do leitor, é execrável: age pela força, pratica o mal e é marcado pela burrice. E um algoz determinado. Com esses predicativos, é a imagem do vilão. Duas cenas são inevitavelmente chocantes. Na fazenda de Nestor, Getúlio dá um corretivo no preso, que se engraçara com a filha do fazendeiro, e arranca-lhe os dentes da frente, com alicate, um a um, na marra. De outra feita, Getúlio degola um tenente, dessa vez em defesa própria, já que as forças pediram sua prisão. Apesar da cena grotesca, nesse momento o leitor já está sentindo uma certa piedade de Getúlio.
Isso porque a narrativa pode ser dividida em duas etapas. A primeira, em que o narrador é odiável, mostra Getúlio cumprindo sua missão de levar o preso sob as ordens de Acrísio. A segunda, em que o leitor experimenta um sentimento de ódio confuso com piedade, mostra o sargento tentando cumprir sua própria palavra, a despeito das ordens em contrário. Conduz o preso sob sua própria determinação, já que é um homem de uma palavra só. Nessa peregrinação, a fragilidade de Getúlio emerge, pois de perseguidor ele passa a perseguido. E custoso para o sargento perceber o abandono "político" a que está exposto. Nesse momento, Getúlio deixa de ser ov