A história começa pela expressão: "Era no tempo do
Rei." De que rei? Possivelmente de D. João VI e a época da chegada da
corte portuguesa ao Brasil, em 1808. O
romance tem este tom narrativo-designativo como se o narrador fosse o condutor do leitor a um mundo pouco convencional ao romance da época: um mundo formado de criaturas comuns, na periferia e nunca na corte, gente como o Barbeiro, a comadre, Vidinha, Luisinha, Maria da Hortaliça e Leonardo Pataca, o pai. Gentinha, gentalha, o "Zé-povinho".
Leonardo, o protagonista, é nascido de "uma pisadela e de um beliscão" , abandonado pelos pais que o deixam sob os cuidados do padrinho, cresce ao deus-dará, sem temer nada ou ninguém, movido pelo prazer e pela alegria de viver. É dessa forma que podemos aproximá-lo de Macunaíma, outro herói sem nenhum caráter.
Foge da tradição romântica do par amoroso bem-aventurado: tanto Leonardo como Luisinha são seres nada extraordinários: se ele é filho de "uma pisadela e de um beliscão", Luisinha é uma moça feia, mal-ajambrada, de olhos baixos e franja a cobrir
os olhos, braços compridos, roupas esquisitas que "tendo perdido as graças de menina ainda não alcançara as graças de mulher".
Uma das pioneiras do gênero romanesco no Brasil e escrita em partes (num jornal), a obra retrata com bom
humor a sociedade
carioca do início do século passado. Milicianos e outros tipos populares povoam o romance Memórias de um Sargento de Milícias. É um romance de humor
popular, baseado nas
aventuras de tipos humanos bem característicos da sociedade carioca do começo do século XIX.
Destinada às páginas do jornal Correio Mercantil, do Rio de Janeiro, Memórias tem capítulos unitários, quase todos contendo um episódio completo. Em seu conjunto, a obra reconstitui a vida de Leonardo Pataca e de seu filho Leonardo, em meio a um vivo retrato das camadas baixas do Rio de Janeiro de D. João VI. Além de concentrar-se nas proezas (sobretudo amorosas) desses dois arquétipos da malandragem carioca, o romance dá muita atenção às festas, aos encontros, às instituições e às profissões populares da cidade, cujas ruas são descritas com a animação de uma verdadeira narrativa de costumes. Trata-se, enfim, de um romance muito agitado e festivo em que não há praticamente nenhuma página sem um incidente ou surpresa espantosa.
Para que se perceba toda a movimentação presente em Memórias de um Sargento de Milícias, é preciso vencer o problema da linguagem – um pouco estranha aos leitores de hoje. A preocupação do autor foi utilizar o português coloquial de seu tempo, com
muitas palavras e construções difíceis para a sensibilidade atual.
Toda a história trata-se de um romance deveras excêntrico, com a particularidade de apresentar uma certa excentricidade em relação à média das obras do Romantismo brasileiro e pelo excesso de imaginação e fantasia.
Esta obra distancia-se da média da sensibilidade romântica pelas seguintes razões:
• A história não envolve personagens da classe dominante, mas sim, pessoas de baixa renda;
• O personagem central não é herói nem vilão. Trata-se de um anti-herói malandro;
• As cenas não são idealizadas, mas reais, apresentando aspectos pouco poéticos da existência;
• Ausência de moralismo e recusa da idéia de que as ações humanas se dividem necessariamente entre boas e más;
• Troca do sentimentalismo pelo humorismo, do estilo elevado e poético pelo estilo tosco e direto, sem torneios embelezadores;
• O estilo é oral e descontraído, diretamente derivado da conversa ou do estilo jornalístico da época;
A originalidade de Memórias em relação ao romance romântico limitou sua penetração na época em que foi escrita, mas, de alguma forma, a aproximou do Realismo, do Modernismo e do folclore nacional.
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