Criticamente, Esaú e Jacó não é o melhor
romance de Machado de Assis, principalmente se comparado aos outros romances da segunda fase. Vale à pena lê-lo, não só pelas virtuosidades do estilo de Machado de Assis como pela história narrada e outras pérolas que o
escritor vai jogando ao longo do romance. Cronologicamente, esta obra surgiu nos fins do
Realismo (1904), estando fora da fase áurea do realismo brasileiro e da ficção machadiana (1880-1900). Quanto á autenticidade das
personagens, é difícil perceber no
livro, exceto a do Conselheiro Aires, que acaba “ocupando o centro de toda a narrativa”. Em Esaú e Jacó, atém-se à análise da complexidade dual do ser
humano, onde Machado procura desvendar e esclarecer os segredos da alma humana, como é o caso do excerto seguinte, transcrito do capítulo XCIII:
“Talvez a causa daquelas síncopes da conversação fosse a viagem que o espírito da moça fazia à casa da gente Santos.” A objetividade e a impessoalidade são outras características que refletem a época do cientificismo, da precisão, da observação. Ao contrário do Romantismo, no Realismo o escritor não interfere na conduta de suas personagens; tanto quanto possível, ele se afasta delas, desenvolvendo assim uma narrativa objetiva e impessoal. Como exemplo, veja-se esta passagem do capítulo XI:
“Perdoa estas minúcias. Entretanto, aqui e ali reponta a ironia, como é o caso da tabuleta do Custódio, da história do “irmão das almas” e mesmo a situação política do Batista. Algumas passagens da obra estão perpassadas de humor, como é o caso da “tabuleta do Custódio”: “Confeitaria do Império” ou “Confeitaria da República?” era difícil a escolha do nome que satisfizesse aos interesses do Custódio, posto que a mudança de regime era iminente. Não há melhor exemplo, nesse sentido, do que o Aires, com suas considerações e reflexões que vai reunindo no seu Memorial, como estas transcritas aqui: “Na mulher, o sexo corrige a banalidade; no homem agrava”, escreveu ele no Memorial, justificando assim porque “preferia a conversação das mulheres”. A Bíblia era um dos livros de cabeceira de Machado de Assis, principalmente no que concerne á linguagem metafórica, largamente utilizada pelo escritor. Entre diversas referências bíblicas, no capítulo XIV, encontramos uma que explica claramente o título do livro; “Esaú e Jacó brigaram no seio materno”, o que também aconteceu com Pedro e Paulo, no romance. A história se desenvolve na cidade do Rio de Janeiro, com diversas referências a localidades ainda hoje existentes, como o Morro do Castelo (hoje Esplanada do Castelo), Botafogo, Andaraí e outras. No fim do romance, a ação se desloca durante algum tempo para Petrópolis. Embora Machado de Assis seja mestre no tempo psicológico, a seqüência dos fatos se revela essencialmente cronológica; inicia-se com a previsão da cabocla do Castelo, em 1871, indo até os primeiros anos da República (1889). Todas as personagens de Esaú e Jacó são fracas e estão muito longe da complexidade humana das grandes personagens machadianas. Pedro e Paulo são os gêmeos que dão nome ao livro (Esaú e Jacó). Não constituem individualidades autônomas, mas fazem o papel de símbolos da dualidade do ser humano, na sua natureza complexa e intricada. A dualidade do ser humano é o que está explícito no próprio título do livro: Esaú e Jacó, figuras bíblicas que rotulam o romance, filhos de Isaac e Rebeca, que se caracterizam pela rivalidade. Os nomes Pedro e Paulo, evocam os dois apóstolos, também rivais, conforme a explicação do personagem Plácido.
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