Morte e
Vida Severina, foi escrita por João Cabral de Melo Neto, em 1956, por encomenda de Maria Clara Machado. A montagem da peça só veio em 1966, com uma temporada no Tuca (
teatro da Universidade Católica), em São Paulo - depois de ter sido musicada pelo compositor Chico Buarque de Holanda. O subtítulo da peça é
Auto de Natal Pernambucano, e é, talvez, a obra em que a ótica Socialista do autor está mais evidente. O
poema com versos curtos de sete sílabas (heptassílabos), metro preferido para as quadras e trovas populares, cantigas de roda e desafio. Assim, é de se perceber que Ariano Suassuna escreveu este auto sob os moldes dos autores humanistas*, principalmente, sob os moldes do teatro português de Gil Vicente, adaptando-se ao cenário nordestino, conforme as características medievalescas, onde o personagem
Severino é a representação do modo de vida de toda uma população sofrida do nordeste brasileiro, que somente por solilóquio, busca entender a sua filosofia, que segundo o autor “Viver é tocar o seu próprio enterro”. O poema se estrutura entre monólogos e diálogos do protagonista, dividindo-se em várias cenas ou quadros. No primeiro quadro, temos um monólogo, onde, o retirante Severino encontra-se uma certa dificuldade no campo da semiose para explicar ao interlocutor quem ele é. Isto se dá porque o nome próprio, Severino(a) é dado como a um nome comum entre as pessoas nascidas no nordeste brasileiro. O adjetivo nome Severino provém do adjetivo latino Severus, a, -um, que significa “castigo” ou “sofrimento”. Para torná-lo próprio, o personagem tem de fazer uso de 64 versos, sendo os primeiros 22 versos para explicar a sua gênesis, 16 versos para explicar a origem de mais outros “Severinos”, iguais a ele; 20 versos para caracterizar o nome “severino”, sob o reflexo da situação geográfica, econômica, social e cultural da região, e, finalmente, 6 versos para destacá-lo dos demais “severinos”. No segundo quadro, Severino encontra-se com dois homens carregando um defunto numa rede. O autor trabalha a questão das brigas de posse de terras, pois quem tem muito, sempre quer mais e busca conseguir os objetivos a qualquer custo. Esta é a realidade nua e crua dos sem-terras que, constantemente estão a brigar contra os latifundiários, donos de extensas propriedades, que, na maioria são terras improdutivas. No terceiro quadro o retirante tem medo de se extraviar, porque o seu guia, o rio Capibaribe secou com o verão. Este rio, que na literariedade de João Cabral de Melo Neto, está sempre a parecer como a “menina dos olhos” ou sua “musa inspiradora”, o autor compara o rio seco com o nordestino que, após tanto sofrimento não encontra saída nos tempos de seca prolongada. No quadro seguinte, o retirante interrompe a sua viagem por um instante e procura trabalho naquele local em que se encontra. Ele dirige-se a uma mulher que estava na janela, perguntando-a se é possível encontrar trabalho. Ela responde a ele que as únicas profissões existentes ali era de coveiro, benzedeiro e tirador de ladainhas. No sétimo e oitavo quadro, Severino se depara com a Zona da Mata. Encontra canaviais verdes, rios e pensa que, com tanta fortuna todos ali deveriam ter um pedaço de chão. Severino compara a terra a uma mulher, sua fertilidade, o dom de dar a vida e com o seio materno amamentar o filho. Mal Severino sabia que aquele paraíso estava cercado de emboscadas; sofrimentos e misérias, enfim... a
Morte. Mesmo naquela terra macia, todos eram subordinados aos donos das propriedades. Percebe-se que há uma diferença social e geográfica, onde os menos favorecidos só tinha privilégio a um pedaço de chão, após a morte, que, segundo o autor é “uma cova com palmo medida, é de bom tamanho, nem largo, nem fundo”, sendo “a parte que te cabe deste latifúndio”. No quadro seguinte, ao chegar no Recife, Severino senta-se para descansar ao pé de um muro alto – de um cemitério - e ouve, sem ser notado, o diálogo entre dois coveiros. Os coveiros parolavam-se sobre os retirantes que, segundo eles, chegam ao Recife, carregando o próprio enterro e sendo sepultados como indigentes. Referem-se a questão do êxodo rural, em que as pessoas saem do campo para a cidade, em busca de melhores condições de vida. A maioria deles, desprovidos de preparo para a nova realidade, deparam-se com situações difíceis de ser encaradas. Severino percebe que ele era só mais um retirante com a mesma sina. Então meio encabrunhado se desespera e quer apressar a sua morte, pensando em se saltar de uma ponte. Antes de tomar essa atitude, um morador de um dos mocambos que existe perto do cais , conhecido como Mestre Carpina aproxima-se de Severino para convencê-lo a não se suicidar. O argumento que o morador apresenta a Severino é o nascimento de seu filho. Mestre Carpina fala a Severino que acaba de nascer uma criança que, apesar das dificuldades traz em si a esperança de mudar o seu futuro. Para ele, esta criança pode ser mais um Severino ou pode possuir um futuro brilhante. Após este exemplo do Mestre Carpina, Severino resolve não se matar, acreditando-se que do mesmo jeito que uma criança inocente pode construir um futuro melhor, ele também não poderia deixar de lutar, até o seu último dia de vida concedido pelo Criador.
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