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SERMÃO DA SEXAGÉSSIMA: - "O SERMÃO DA QUARESMA"

por : magnus2    

Autor : PADRE ANTÔNIO VIEIRA

1.      Por que Sermão?
Etimologicamente, a palavra sermão deriva do latim
sermone, que quer dizer conversação. Essa derivação remete a um aspecto importante da arte de pregar vieiriana: a sua natureza eminentemente retórica, pública, persuasiva. O discurso de Vieira, normalmente proferido do púlpito, a partir do texto bíblico, pretende conter a verdade de uma tradição compartilhada. Exemplo de sedução e argumentação, de um árduo e incessante trabalho com a linguagem, o sermão – veículo dotado de regras próprias, com reconhecida tradição dirige-se a um auditório particular, numa circunstância conjuntural precisa em determinada situação. Neste sermão, por exemplo, da “sexagéssima”, ele prepara os fieis para a quaresma que se aproxima:  “Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei-de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma” (Cap.I).
2.      Por que Sermão da  Sexagéssima?
Este Sermão da Sexagéssima, como sabemos, foi pregado na Capela Real, no ano de 1655, em Lisboa, Portugal. É de se saber que no calendário Católico em uso até o concílio Vaticano II,  “sexagéssima” corresponderá  ao segundo domingo antes do primeiro da quaresma, ou 60 dias, aproximadamente, antes da Páscoa.
Observe esta passagem do último parágrafo do capítulo X de  o “Sermão da Sexagéssima”:
“Estamos às portas da Quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum.”
3.      A RETÓRICA DE VIEIRA
Se a linguagem de Vieira é típica do barroco europeu, pelos ornamentos, latinismos e elaborada conceituação, suas obras pertencem inequivocamente ao Novo Mundo, pela liberdade de emoções, ousadia da forma e atitude de tolerância racial.
A religiosidade de Vieira é medieval, mas sua consciência é pós-renascentista, atenta aos fatos econômicos e políticos. Essa contradição imprime força e interesse a seu estilo, em que as tensões entre os mistérios originais e a demonstração racional o tornam um dos modelos mais fascinantes da literatura barroca. Os mais de 200 Sermões foram reunidos em 15 volumes na edição do Porto (1908-1909), e as Cartas, mais de 500, foram organizadas e anotadas por João Lúcio de Azevedo em três volumes, na edição de Coimbra (1925-1928). Nesses dois gêneros a matriz estilística é a mesma, e a linguagem resultante se caracteriza pelas mesmas qualidades de exatidão, propriedade, elegância e destreza no jogo de palavras.  A um tom de grandeza se acrescenta sempre funcionalidade.
É próprio do sermonista tentar encantar, seduzir a platéia, graças a uma retórica magnificente. E como se ele pretendesse que o ouvinte pensasse: “Esse homem é tão extraordinário e a voz divina, eu tenho que me elevar, continuar perto da religião, cultivar-me para estar próximo a Deus”.     
Publicado em: janeiro 30, 2008
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