Aliás, neste sentido, é preciso também o depoimento do "cigano que viu chegar o Alferes", quando diz no Romance XXXIII: (
Fala e pensa como um vivo, mas deve estar condenado. Tem qualquer coisa no juízo, mas em ser um desvairado.) No Romance XXXIV, confrontando o delator Joaquim Silvério com Judas, a escritora conclui que aquele levou a melhor, pois ele (Judas) encontra remorso / coisa que não te (= a Silvério) acontece. Fechando o romance, entre parênteses, há uma reflexão poética profunda, quando fala da "força de vermes", ou seja, dos delatores, dos maus, enquanto os bons apenas "sonham". (Pelos caminhos do mundo, nenhum destino se perde: há os grandes sonhos dos homens e a surda força dos vermes.) Aliás, é o que ocorre também no romance "do suspiroso Alferes", onde há, igualmente, um lamento profundo sobre o comodismo do homem face à situação que o envolve: (Todos querem
liberdade, mas quem por ela trabalha?) (O humano resgate custa pesadas carnificinas! Quem more, para dar vida? Quem quer arriscar seu sangue?) E é exatamente esse comodismo, dos bons que é a força dos maus, dos
traidores, dos déspotas da liberdade: Mas os traidores labutam nas funestas oficinas: vão e vêm as sentinelas passam cartas de denúncia... Na "noite escura" de 10 de
maio de 1789, prenderam o Tiradentes com seus pensamentos de liberdade. Há um lamento profundo de desespero e dor por estar sozinho na luta pela liberdade: Minas da minha esperança, Minas do meu desespero! Agarram-me os soldados, como qualquer bandoleiro. Vim trabalhar para todos, e abandonado me vejo. Todos
tremem. Todos fogem. A quem dediquei meu zelo? (Romance XXXXVII) E o medo e a ansiedade se espalham por toda Minas Gerais. No
fim do mesmo maio, prendem os outros suspeitos: Andam as quatro comarcas em grande desassossego: vão soldados, vêm soldados; tremem os brancos e os negros. Se já levaram Gonzaga e Alvarenga, mas Toledo! Se a Cláudio mandam recados para que se esconda a tempo! Outros implicados menores vão sendo presos. Há "conversas indignadas" - há também "testemunha falsa". Há até mesmo um "embuçado" envolto em panos e
mistério que pretende salvar o poeta Cláudio Manuel da Costa. Mas todos terão seu fim. O padre Rolim, famoso por suas safadezas, estava na iminência de ser preso. O problema era determinar o seu crime, já que, além da suspeita de inconfidente, era culpado também, segundo o falatório: por ter arrombado a mesa de um juiz, em certa devassa; por extravio de pedras; por causa de uma mulata; por causa de uma donzela; por uma mulher casada. (Romance XLV) Mas o padre, que não era nada bobo, enquanto as autoridades discutiam a sua prisão, "pulando cercas e muros", fugiu, levando consigo os seus sete pecados ou setenta-e sete... Nos "seqüestros" das casas e bens, "tudo é visto e resolvido" pelos executores da lei, havia de tudo, até mesmo: as sugestões perigosas de França e Estados Unidos Mably, Voltaire e outros tantos, que são todos libertinos... (Romance XLVII) Antes de prosseguir no trabalho de dar fim aos inconfidentes, a autora interrompe a narrativa para fazer uma belíssima reflexão na Fala aos Pusilânimes, na qual condena os que não tiveram a coragem, a audácia de acender o pavio da chama da liberdade; os que sonharam e deixaram que seus sonhos fossem pelos espaços infindos, como bolhas etéreas... Mas o fenômeno é eterno e universal - a estirpe dos pusilânimes sempre existiu e existirá na face da terra: - só por serdes os pusilânimes, os da pusilânime estirpe, que atravessa a história do mundo em todas as datas e raças, como veia de sangue impuro queimando as puras primaveras, enfraquecendo o sonho humano quando as auroras desabrocham! E a liberdade que foi traída pela pusilanimidade dos que sonhavam com ela ficará gravada nos "céus eternos" como um eco sombrio que chama ao ajuste de contas e à condenação eterna: O vós, que não sabeis do Inferno, olhai, vinde vê-lo, o seu nome é só - PULSILANIMIDADE. O mistério paira sobre o fim do poeta Cláudio, que é também a versão da história. Suicídio? Fuga? Rapto? - As dúvidas parecem justificáveis: Cláudio era secretário do governo e afilhado de João Fernandes. Daí o interesse por livrá-lo da masmorra e do desterro. De qualquer modo paira o mistério: Entre esta porta e esta ponte, fica o mistério parado. Aqui, Glauceste Satúrnio, morto, ou vivo disfarçado, deixou de existir no mundo em fábula arrebatado. (Romance XLIX)
Mais críticas sobre ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA - PARTE 3-B: "O CICLO DA LIBERDADE"