Ciclo do
ouro - O cenário colocado para o
Ciclo do ouro prenuncia também o ciclo da
liberdade, no qual "a mão do Alferes de longe acena" como a querer dizer: Adeus! que trabalhar vou para todos!... Mas essa mão que acena à liberdade e ao homem livre será enforcada mais tarde. Por enquanto, vejamos o alvorecer do ouro que vai brilhar intensamente nas Minas Gerais, despertando a cobiça e ganância dos homens e, quem sabe, o sonho de liberdade dos inconfidentes que nasceria também do ouro da terra. Descobre-se o ouro e, por causa dele, o homem vai matando animais, pessoas, florestas e tudo que lhe atravessa o caminho. Desbrava-se a mata. Surgem montanhas douradas de ouro e de cobiça que despertam uma verdadeira alucinação: Selvas, montanhas e rios estão transidos de pasmo. É que avançam, terra adentro, os homens alucinados. (Romance I) E gerações e mais gerações de netos afundariam nesse abismo: Que a sede de ouro é sem cura, e, por ela subjugados, os homens matam-se e morrem, ficam mortos, mas não fartos. (ib.ib) Como o ouro que brota da terra, brotam também "as sinistras rivalidades", ladrões e contrabandistas, - um clima de intranqüilidade: todos pedem ouro e prata, e estendem punhos severos, mas vão sendo fabricadas muitas algemas de
ferro. (Romance II) E por amor, pelo ouro, uma
donzela é assassinada pela mão de seu pai. O ouro não permitia que a donzela acenasse a um amor "de condição desigual" o seu lencinho" de sonho e sal" . Surge Felipe dos Santos, que assanha a fúria do Conde de Assumar. É morto e esquartejado, mas o herói que tomba no Arraial do Ouro Podre ficará como exemplo perene de força e de coragem para os que virão. O tirano conde haveria de chorar porque quem ri, chora também. O Brasil ainda era criança - um "menino" apenas. Nasceriam outros como Felipe dos Santos: Dorme, meu menino, dorme, - que Deus te ensine a lição dos que sofrerem neste mundo violência e perseguição Morreu Felipe dos Santos; outros, porém, nascerão. (Romance V) Cria-se o quinto do ouro, cobrado a ferro e fogo: a Coroa precisava de ouro. Há logros: D. Rodrigo César e Sebastião Fernandes enviam para a coroa caixotes selados com "grãos de chumbo" em vez de grãos de ouro. Ai, que o Monarca procura os que vão ser castigados. E o "quinto falsificado" se tornaria o décuplo de forcas e degredos para a dourada colônia! Pela madrugada fria, rompe o canto do negro no serviço de catar o ouro, enquanto o patrão dorme e sonha. O negro pena e chora, canta e ri na saudade da
serra, na imensidão da terra. E na sua vida escrava, ele erra sem terra, sem serra, sem nada: (Deus do céu, como é possível! penar tanto e não ter nada!) (Romance VII) O ouro lhe tiraria o "t" da terra e o "s" da serra e ele erra cativo, sem liberdade, com os elos de ferro da escravidão... Mas o ouro que brotava da terra não cativara apenas o preto, como Chico, que também já fora rei "lá na banda em que corre o Congo": também os brancos foram atirados naquela lama que alimentava a ganância de reis e rainhas: Hoje, os brancos também, meu povo, são tristes cativos. (Romance VIII) Santa Ifigênia, princesa núbia, protetora dos negros, desce às minas "vira-e-sai", depois de amenizar o sofrimento deles. As pessoas, por causa do ouro, iam-se embrutecendo: movido pelo ódio, um contratador, quase assassinou um ouvidor, dentro de uma igreja, porque este, enamorado, arremessara uma flor a uma donzela. Os filhos do almotacé (inspetor de pesos e medidas), sete crianças, rezam diante de Nossa Senhora da Ajuda. Joaquim José é uma delas. As crianças pedem à Virgem que o salve "do triste destino que vai padecer". Será em vão. A virgem não poderá atendê-los, mesmo sendo crianças. Mais forte do que um pedido de criança é o destino traçado para um homem! Mesmo sendo seis e irmãos do sentenciado! (Lá vai um menino entre seis irmãos. Senhora da Ajuda, pelo vosso nome, estendei-lhe as mãos!) (Romance XII), O pedido agora (entre parênteses) é da poetisa à Virgem. Não será atendida: mais forte do que o pedido de um poeta é o destino traçado para um homem! Mas, por enquanto, reina a bonança: "os tempos são de ouro". A tempestade virá depois, em 1792, com a execução. Antes de chegar a forca, porém, outro metal brilhará intensamente nas Minas Gerais: os diamantes do Tejuco, depois Diamantina.
Mais críticas sobre ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA - PARTE 1: "O CICLO DO OURO"