MISTÉRIO SOB AS LUZES DA ARCADIA
Autor: RODRIGUES JR., FRANCISCO
Editora: PONTES
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA-ROMANCES
ISBN : 8571132224
ISBN-13: 9788571132221
Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2006 - 218 pág.
“Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos
anos inda não está cortado:
Os pastores, que habitam este monte,
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha,
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!”
GONZAGA,Tomás Antônio (1744-1810). Marília de Dirceu, Parte I: Lira I (versos 11 a 19) Francisco Rodrigues Júnior e Gonzaga estão separados por séculos. Aquele, Francisco Júnior, é de hoje, está aí bem jovem, este, Gonzaga, é do século 18. No romance
MISTÉRIO sob as Luzes da Arcádia e no
poema Marília de Dirceu, encontramos o ser humano com seus amores, seus humores, e tudo o mais que existe entre o céu e a
terra. Em ambos o terna é o
amor, essa coisa perene, o eterno tema, o mesmo amor que vem trazendo felicidade ou cicatrizes para amantes e nações inteiras, desde Homero até Francisco Júnior: Helena, Grécia e Tróia; Lucrécia e os reis de Roma; Júlia e André. O poema de Gonzaga foi editado e reeditado incessantemente desde 1792. Daí porque o amor de Gonzaga atravessou esses séculos, trazido pelos próprios Dirceu e Marília, até Francisco Júnior, e este teve uma feliz idéia. Fez uma surpreendente releitura do poema, recria em cima um belo romance ambientado também no século 18, muito inspirado e muito interessante, a que não faltam o maravilhoso, os fenômenos naturais e histórias e lendas extraordinárias, de arrepiar, incluindo aí o mistério. Nem falta intriga dos deuses da Antigüidade clássica transportados com o neoclassicismo até os árcades e, como se vê, até nós. E sem ferir a verossimilhança pela qual pugna a Arcádia, porque este conceito não tem a pretensão de um realismo absoluto. Verossímil é o natural idealizado. Nos mitos e em outras fantasias, as imagens são convertidas e adquirem aparências do real. Não tem gente que chora diante de um filme ou de uma novela? Pois é.
O Dirceu de Francisco Júnior é tão apaixonado quanto o de Gonzaga. Ama na adversidade a sua Marília, gentil Pastora, e quer profundamente a independência de sua terra-pátria, sua Minas Gerais espoliada para financiar a Revolução Industrial e terremoto de Lisboa. Mas Francisco Júnior tem ainda outras preocupações: inventou aquele mistério (monetae sicarii Iudas) para seu livro e, além disso, faz veementes críticas à ganância, às garras do Leão, ao namoro por controle remoto, noivas em troca de pepitas de ouro e diamantes, casamentos encomendados, fanatismo por títulos, medalhões, genealogia, culto da aparência, e desprezo pelo sucesso pessoal que não advenha de bens e sobrenomes. Ficaram para trás as fases do Pau-Brasil; dos engenhos de açúcar; a mineração, pelo esgotamento, já não rendia tanto e ainda esmagada pela Real Fazenda, que continuava a mandar seus provedores com garras tão afiadas quanto. Para driblar a crise econômica, a fome e a miséria, Francisco Júnior, então, anima Dirceu para a agropecuária. Criar, plantar e colher alimentos para todos. Cem anos antes de 1888, aboliu a escravatura em suas terras, comprava escravos segundo a lei e o costume, mas os libertava. Repartiu sua propriedade e criou duzentas casas para os sem-terra de sua fazenda (mais de duzentos anos antes de nós!). Promovia regularmente festas religiosas. Todos eram amigos independentemente da genética.
Lendo hoje, no século 21, uma obra concebida para um espaço físico e cultural de séculos anteriores, sente-se o impacto da linguagem. Segundo o pesquisador e mestre Serafim da Silva Neto (
história a Língua Portuguesa), a nossa língua, dita normal, só foi difundida no Brasil a partirde 1808 com a vinda da monar
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