O meu coração é uma casa de vidro, aberta. Há som na sua voz? Não há quem saiba. Talvez o horizonte me diga, ou complete
o que eu já sei. É pirueta o que sei, nada mais, só isso, você não sabe, mas eu sei o que esconde dentro de você, é fogo, fogo voraz, devora a sua carne podre e quente, como a febre de um louco. Oh! Louco corpo seu, ele me lambe, esfria os meus dias de criança. Mima-me ó colo, o meu interior de homem maduro. Não tão maduro, pois,
sinto a irresponsabilidade, quando você me devora. Súbito desejo, eu sinto aflorar a minha pele, ela geme como porta velha. É lacrimoso, carnívoro, e suga o meu sorriso, tão amarelo, cor de atenção. Tuas
pernas, nas minhas pernas contaminam o pecado. Quem diria você, eu, dois corpos sozinhos, aqui, no vai e vem da carne, ela é o nosso pecado, contaminado, como os nossos pensamentos. Você me vem, me pega, e me leva para dentro de você, se mexe, corto-me ao meio com o seu corpo corrente, até o fio, eu fico. Depois de tudo, medito, olhando o tempo, ele passa, calmo, sozinho, mas leva, leva o que sai, você é o que sai, vai me deixar aqui, com turbilhões de perguntas, todas boiando em mim, como bóiam, e não é bom o que dói, não constrói. A tua juventude é a lamina que corta a minha velhice, os teus lábios, tuas fantasias devoram o que aprendi há séculos. O Deus está no trono, você não pode tocá-lo, ele é de cristal, cristal límpido, como o que penso, quando não penso em você. Lavo as minhas mãos, elas não estão sujas, mas preciso lavá-las antes de lhe entregar as minhas verdades.