Todos integrantes de uma
comunidade escolar reclamam
do mau funcionamento da escola. Porém, não assumem a responsabilidade
total. Os
pais estão preocupados e insatisfeitos com os resultados obtidos e, além de
responsabilizar a própria prole e os docentes, se julgam incapazes de dar uma
boa educação para seus filhos. Os professores, por sua vez, sentem-se sobrecarregados,
desvalorizados e mal remunerados, se acomodando e se tornando alienados à sorte
de seus alunos. Já, para estes, a escola não é um lugar agradável. Dentro dela
não há lugar para seus problemas e preocupações. Assim, vão perdendo
paulatinamente a motivação, resignando-se ao fracasso escolar. Apesar dessas
questões, os pais ainda acreditam que a escola é o único meio de se poder
ascender socialmente. Hoje, a lei assegura obrigatoriedade de acesso ao Ensino
Fundamental. Entretanto, nem sempre foi assim: tal direito era reservado
somente aos filhos de pessoas com maior poder aquisitivo. As expectativas sobre
os resultados escolares contradizem a esperança de que a escola seja o
principal meio de ascensão social, pois um número elevado de crianças é excluído
e marginalizado. Essa dificuldade de acesso é ainda maior na zona rural,
acentuando as desigualdades entre regiões ricas e pobres. Dentre aqueles que
ingressam nas escolas, muitos se evadem devido a consecutivas reprovações ou
pelo fato de que precisam trabalhar. Essa evasão recai, sobretudo, sobre
crianças pertencentes às classes desprivilegiadas que, num dado futuro, terão
de se submeter a serviços pouco rentáveis ou aumentar a fileira dos
desempregados. A justificativa do fracasso escolar como conseqüência de um
problema individual peculiar à determinada criança e sua condição social são
meras desculpas. São apontadas também como justificativas o despreparo docente,
os regimentos e exigências escolares em desacordo com as
necessidades dos alunos,
entre outros. Realmente, todos esses fatores exercem algum tipo de influência
sobre o aprendizado do aluno, mas poderiam ser resolvidos se a escola fosse
mais flexível, ou seja, mais adaptada de modo a atender às necessidades da
comunidade na qual está inserida. Na verdade, a educação trata igualmente os
alunos que são diferentes socialmente, aumentando a desigualdade. Naquelas
escolas consideradas “boas” trabalham professores experientes, com todos os
tipos de recursos disponíveis, estando localizadas nos bairros mais prósperos,
atendendo uma clientela privilegiada. Já, naquelas consideradas “carentes”,
ocorre o inverso. Isso acontece porque a comunidade escolar das “escolas boas”
reivindica seus direitos através de um Projeto Político Pedagógico que atenda a
suas necessidades. Sabe-se que as crianças pobres aprendem desde cedo a cuidar
de si mesmas, resolvendo seus problemas á medida que aparecem. Todavia, dentro
do ambiente escolar, elas se inibem. Uma das causas consiste no entendimento da
língua vernácula ensinada, considerada da classe alta. Assim, a criança, ao ser
corrigida, se sente criticada e envergonhada, calando-se. Portanto, ela se
torna incapaz de comunicar-se, prejudicando sua criatividade e raciocínio.
Ocorre que a escola, geralmente, não aproveita a bagagem cultural anterior dos
alunos pobres, achando que não trazem nada. O resultado é a desmotivação, a
rebeldia e a agressividade, pois os saberes escolares, muitas vezes, não são
compreendidos, por serem abstratos e inúteis para resolver questões cotidianas.
Já, os alunos da classe privilegiada, ao ingressar na escola, trazem consigo um
legado cultural adquirido pelo fácil acesso aos saberes culturais e meios de
comunicação. Além disso, são incentivados ao estudo pelos familiares. A
organização escolar, por sua vez, não incentiva o trabalho coletivo e nem
estimula a solidariedade, valorizando somente aqueles considerados “mais
inteligentes”. Da maioria desfavorecida, aquele que obtém sucesso é tido como
exemplo. Assim, o restante sente-se ignorante e inferior. Esse modelo escolar é
o reflexo da organização social, injusta e desigual. Entretanto, a escola
insere-se dentro de uma comunidade e se esta começar a protestar contra tais
discriminações, poderá mudar o sistema educacional, fazendo com que os
interesses da maioria possam ser atendidos. Deve-se adotar medidas que assegure
o ingresso e a permanência das crianças pobres na escola o maior tempo
possível. Salienta-se aqui que a educação infantil inicia-se, primeiramente, no
ambiente familiar, onde a criança adquire sua estrutura básica de
personalidade. Assim, quanto mais cedo entrar na escola, poderá recuperar as
desvantagens dessa situação. No mais, é necessário adaptar a escola e preparar
os docentes a fim de que supra as necessidades desses alunos, incentivando-lhes
o desenvolvimento das competências e habilidades básicas para uma vida melhor.
Para que haja uma mudança, a população deve organizar-se para defender seus
direitos. Dessa maneira, irá aprender e ensinar. Durante esse processo surgirão
novas formas de agir, propiciando vantagens para todos.