A menina, aluna de Ada, que se sentara sem calcinha
à sua frente no dia em que ele apresentara-se de operário
para uma de suas
aulas de sociologia. Onde andaria a danadinha, pensava. Bêbado, joga a chave do
apartamento num bueiro. Novamente se vê no passado, deitado no degrau de um
prédio público. Avista o negro cego tocando sax e chama-o. Conhecera-o há anos.
Era músico. O cego sofria de fome. Mas preferia assim, viver sem calendário. Foram
para o bar tomar café. Depois para a rua, à deriva, enquanto o vento soprava
forte. De volta ao apartamento, recebe um telefonema que mal consegue entender,
apenas que é de um estrangeiro. Pega o ônibus para Viamão. No fim da linha uma
igreja, uma galinha, uma menina vendendo caramelos. No lugarejo olhares
esquivos dos habitantes. Sobe o morro bêbado; o ar puro revitaliza-o. Está indo
para o Vale que fica depois do morro. Lá do alto avista uma casinha de madeira
sozinha no meio da vegetação árida lá embaixo. Ao chegar à casa bastante
abandonada e sentindo muita sede, chama por alguém. Aparece um homem com
sotaque estrangeiro que lhe diz não ter água em casa, só cachaça. Era louro,
vestia uma calça branca arregaçada e tinha uma tatuagem no peito e um olho
tatuado. Beberam duas garrafas de cachaça na casa escura, iluminada apenas por
um lampião. O americano chaava-se Steve e discorria sobre sua vida, sobre o
tempo do colégio, deixando seu visitante completamente entediado. Este,
perguntado-se se alguém neste mundo ainda poderia lhe interessar. Steve
conta-lhe que estudou em Harvad e que durante anos foi dopado por um
psiquiatra. Abandonou Harvard. Internou-se numa clínica e adquiriu uma grave
amnésia. Recebera tantos choques insulínicos que nunca mais recuperara de todo
a memória. Estava ali a falar o quanto a clínica o havia aniquilado. A vida
tornara-se-lhe vil. Steve prossegue sua história. A vida que tivera em Boston. Fora casado
com Jill antes de decidir mudar-se para o Brasil. Reencontrara o amigo Baby
Buffalo, que desde os treze anos não via. Baby Buffalo contou-lhe que aos vinte
anos estuprara uma mulher em Vermont, passara um tempo na prisão, e estava
tentando refazer a vida em
Boston. A partir daí voltaram à velha amizade até Baby
Buffalo ser preso novamente. Nosso
protagonista começa então a falar sobre a
experiência que teve no mesmo parque de Boston em que Steve reencontrou
Baby Buffalo. Conta-lhe que pisou num corpo de mulher desenhado a giz no chão. Ao
pé do corpo estava escrito que havia sido estuprada. Steve torna-se possesso.
Quer matá-lo, inicia-se uma briga que os levará à extrema violência. Steve
acaba extenuado e todo ensanguentado, mas resiste ainda. Nosso protagonista
também tendo sido muito golpeado, ameaça-o com uma pedra, e acaba conseguindo
escapar. Steve fica caído no morro, ao relento. Na estada em Boston, Ada esteve
lendo um livro pelo qual apaixonou-se, chamado Minimal Society. Tratava de uma
sociedade autosuficiente na qual tudo de que se necessitasse seria produzido,
abolindo a introdução do comércio exterior. Nesta sociedade autogerida, o
sentido de nacionalidade não existia, pois o importante seria ser um cidadão
minimalista. Ali se desenvolveria também a crença na reencarnação. E assim cada
vez que se morresse, o espírito voltaria para uma sociedade minimalista mais
evoluída, já redimido dos erros passados. Por esta época, o protagonista e Ada
já andavam entendiados um com o outro. Ada fazia quindins para viver. Ada
mantinha uma relação estranha com Alícia, a mexicana com quem dividia o
apartamento. Ia além da amizade. Uma espécie de dependência por parte de Ada e
paixão por parte de Alícia. Quanto à sociedade minimalista de Ada, em que todos
seriam livres, tudo seria permitido: banhos grupais, trocas de casais, até que
seria uma boa idéia passar por essas experiências. Teria muito o que contar nos
livros. Mas Ada lhe dizia que por enquanto era melhor mesmo que voltasse para o
Brasil. "A bem da verdade, qual o dia que passa sem alguém dissolver minha
última esperança? Há sempre alguém a postos para declarar que estou perdido. Que
já é outro o rumo das coisas e que eu me atrasei. Que a história marcha e olha
como ainda estou cheio de ilusões. Tudo marcha em direção a uma clareza que
absolutamente não compreendo. (...) Eu e tudo estávamos sofrendo de um
ridículo, mas esse ridículo não me dava vontade de rir mas sim um medo atroz. Então
entrei num bar e pensei num porre. Daqueles que eu costumava ter no Brasil. Daquelas
noites que no dia seguinte você não lembra de nada. E eu tinha um bom motivo
para beber: esquecer por uma noite do ridículo, o mais completamente." Mary
viera do Quênia. Era uma negra forte, de grandes seios. Fora aos Estados Unidos
apresentar um vasto relatório sobre pesquisas minimalistas desenvolvidas em seu
país. Falava de como os cegos seriam úteis nas sociedades minimalistas, pois através
de suas experiências com a escuridão é que se chegaria à luz. Nos ensinariam
que só há um único caminho: o da luz. Dizia também que pesquisas recentes sobre
o sono afirmavam a importância de não se observar alguém dormindo, porque o ser
humano é a única espécie que odeia o seu semelhante, e quando este dorme, sente
um desejo intenso de eliminá-lo, embora esse desejo visceral seja reprimido
pela moral social. As conversas de Ada, Alícia e Mary giravam em torno da
sociedade minimalista. Não havia espaço entre elas para um intruso que não
estivesse de tal modo integrado. Foi quando Ada pediu-lhe que voltasse ao
Brasil. Em Porto Alegre,
nosso protagonista fala a João sobre a sociedade minimalista. João quer saber
como é encarado o Terceiro Mundo, as relações de produção, os velhos. E
irrita-se pelo amigo não ser capaz de responder-lhe. João era um escritor
corajoso. Escrevera um romance esperançoso em contraponto à atual sociedade
corrosiva.