O
“
multiculturalismo” é definido por regras que se estruturam nas lutas sociais
através dos atores que experimentam
a discriminação e o preconceito nas
sociedades. Para entendê-lo, é necessário compreender os contextos históricos
associados a uma tomada de consciência coletiva opositora a toda forma de etnocentrismo,
pois seu ponto de partida é a pluralidade das vivências culturais que moldam as
interações sociais. Seus principais divulgadores são os meios de comunicação.
Estes produzem um grande impacto, levando os receptores a repensar valores, a
construir relações interétnicas, com sérias repercussões em seus propósitos.
Para se compreender o fenômeno, deve-se enfocar a perspectiva
histórico-sociológica, que apresenta as condições sócio-históricas em que ele
desponta como um dos princípios norteadores de políticas culturais que visam
interferir nas relações de poder, excluindo dos centros decisórios,
significativas parcelas da população. Esse fenômeno iniciou-se em países cuja
diversidade cultural é tida como empecilho para construção da unidade nacional,
a qual se efetua por meio de processos autoritários e pela imposição de uma
cultura dita como superior a todos os membros. Assim, o
multiculturalismo aparece como principio ético que orienta a ação de grupos culturalmente
dominados, aos quais foi negado o direito de preservarem suas características.
Inicialmente, na América, os movimentos expressavam a reivindicação de grupos
étnicos. Hoje, contam com a aliança de outras minorias e, juntos, reagem
através de suas organizações políticas, para serem reconhecidos e respeitados
quanto aos seus direitos civis. Historicamente, o primeiro choque
Multicultural deu-se entre os europeus e os indígenas, cuja resistência inicial cedeu lugar
ao movimento de contra-aculturação que traduziu o desejo de restabelecer o equilíbrio,
o qual produziu a interpenetração das culturas do colonizador e do colonizado.
O primeiro, se impregnou pela tradição dos dominados sem perder sua referência.
Já, o segundo teve uma aculturação forçada e persuadida, baseada na cultura do
dominador. O segundo choque foi feito pela integração dos povos africanos
através de vivências que foram sendo (re)elaboradas através do contato com
outros grupos não-africanos, surgindo novas formas culturais. Logo, após sua
acomodação, tentaram resistência ao modelo dominador, surgindo, no Brasil, a
primeira organização de luta: o quilombo. Nesta se processava uma experiência
multicultural, já que seus participantes não se aculturaram e guardaram um
sentimento de nostalgia, o banzo. Destruído esses focos de resistência, o
processo aculturador efetuou-se no sentido de garantir a supremacia da cultura
européia. Assim, a história do continente americano foi marcada por conflitos
étnicos, que se agravaram no final do século XIX, com a chegada dos imigrantes
europeus e asiáticos. Essa rica diversidade se constitui em um problema, porque
a convivência é marcada por conflitos, motivados por preconceitos e
discriminações. Quanto mais se intensificam, mais exige dos grupos uma ação
coletiva visando interferir nos padrões dominadores. Assim surgiu a
Antropologia Culturalista, que gerou um conjunto de conhecimentos sobre a
diversidade, cujas formas de dominação são justificadas como resultantes de uma
lei natural e são tidas como um ato injusto. Seus estudiosos embasaram e prepararam
movimentos de protestos contra os modelos de dominação cultural vigentes. Desse
modo, o multiculturalismo tem contribuído para produzir novas subjetividades,
representando o trabalho dos atores na construção de indivíduos e de suas
imagens no mundo. Nesse caso, o fenômeno cria identidades que extrapolam as
fronteiras nacionais, criando novas linguagens e imagens entre os jovens, no
qual a arte é a principal responsável pela rápida difusão. Sua popularidade se
dá por meio da música etnicamente elaborada, miscigenada, originada em um certo
local que migrapara outras regiões impregnando-se de outros ritmos, como o
rap e o reggae. Em termos de imagem, ganhou um espaço na indústria
cinematográfica. O tema é tratado criticamente. O cinema combina informações,
servindo de veículo na difusão de certas idéias, constituindo instrumento
poderoso entre os diferentes tipos de protesto cultural ou entre atitudes de
denúncia e de cautela quanto às condutas radicais. Desse jeito, o conteúdo
étnico associou-se a linguagem artística e ganhou adeptos na juventude em
várias partes do mundo. Toda essa experiência relatada é o maior complicador
para se discutir o papel das políticas públicas na reversão das desigualdades.
A pluralidade se coloca como um problema quando as sociedades se acham
monoculturais, a partir de um referencial etnocêntrico e, ainda, quando as
classes pelas quais elas se definem não dão conta da diversidade interna.
Subjacente a essa problemática, o multiculturalismo somente interessa a certos
grupos excluídos dos centros decisórios por questões econômicas e culturais. Em
ambos os casos, o movimento foi liderado por aqueles que dentro de suas
comunidades conseguiram atingir um certo nível de escolaridade. Assim, uma
política multicultural pode levar ao esfacelamento da suposta unidade nacional,
já que se vê o movimento em defesa dos direitos às diferenças de forma
homogênea, mas analisando o debate em seu interior, verifica-se que existe o
risco de “guetização” ou ameaças separatistas. Atualmente, os movimentos
étnicos aparecem divididos e clivados de tendências. Da década de 1970 até
hoje, o multiculturalismo favoreceu a montagem de uma rede de comunicação entre
os diferentes grupos dominados. Em alguns casos, há entre eles troca de
informações e uma definição de estratégias de luta comum, o qual gera novas
formas de aprendizagem, ampliando a idéia de diversidade. Entretanto, esses
movimentos solidários permeiam-se por situações de tensão e conflito. O fato
deste fenômeno se abrir a diferentes protestos, não significa que,
internamente, haja todo tipo de aliança. Essa depende do contexto e da
situação.