Uma edição primorosa de Três
mulheres de três PPPês dá início ao relançamento da obra completa de Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977). . Contemplado pela atenção crítica de nomes como Antonio Candido, Roberto Schwarz, Modesto Carone, Celso Luft, J. G. Nogueira Moutinho, Três mulheres foi acolhido como importante expressão da literatura brasileira do século 20. Caricatas, com algo de vaudevile - Roberto Schwarz registra a excessiva proximidade à piada - as histórias têm algo da prosa libertina dos setecentos. Fazem crítica corrosiva à classe abastada que, como na cena contemporânea, busca muito conhecimento sem impedir que a irracionalidade prevaleça. As personagens se ocupam e falam abundantemente de tolices, empenham-se em mesquinharias, modo de fazer valer um orgulho vazio e algumas teorias inúteis. Os três relatos parecem ter o mesmo narrador, o obtuso e tragicômico Polydoro, seduzido por mulheres muito mais inteligentes do que ele e enredado em situações que tanto têm de picantes quanto de patéticas. Nossa literatura explora pouco a comicidade que, por preconceito, é julgada menor, como se não fosse divertida e séria ao mesmo tempo. Essa é a provável razão do silêncio ou do incômodo de alguns críticos com tal aspecto da ficção de Paulo Emílio, quando são pródigos ao falar de outros. Nogueira Moutinho, porém, identificou a linhagem do ficcionista: "naturalista à melhor maneira de Oswald de Andrade, isto é, desmistificador satírico de uma sociedade com a genial exposição de seus aleijões". Em relatos com muitas referências a São Paulo nos anos 1940, o
autor ironiza antigas técnicas narrativas e estilos pomposos e artificiais. Também pratica uma forma de biografismo em alusões, às vezes indiretas, a locais que freqüentou e em brincadeiras com amigos como Décio de Almeida Prado e Antonio Candido. A expressão inglesa private joke, piada particular, explica melhor esse tipo de jogo verbal destinado a fazer rir pessoas próximas em clima de cumplicidade. Costuma-se dizer que Três mulheres é uma crítica ferrenha à sociedade paulista, enquadramento que acaba sendo restritivo. Seus tipos risíveis poderiam freqüentar outras geografias, embora não pudessem provir de classe diferente daquela a que pertencem. As
mulherinhas "Mas, e as mulherinhas? Você não diz nada sobre as mulherinhas!" Essa foi a reclamação de Paulo Emílio ao ver o texto da contracapa da primeira tiragem de sua obra ficcional, com apreciação crítica da prima Zulmira Ribeiro Tavares, que teve a iniciativa da publicação das
novelas pela editora Perspectiva. O episódio recebeu registro de rodapé, na recente edição organizada por Carlos Augusto Calil, com fortuna crítica do autor, além de textos que tinham sido suprimidos na versão final, oportunidade de
conhecer o processo de criação do autor. A surpresa de Paulo Emílio pela ausência de comentário sobre suas
protagonistas em crises conjugais, no entanto, é menos marginal do que pode parecer, assim como merece atenção o gesto de ele se intrometer na apresentação de si mesmo, emendando o texto de Zulmira com a frase “três mulheres totalmente fora do controle de seus respectivos PPPês”. O fato é significativo porque esse é outro desvio das análises eruditas e abundantes feitas às suas novelas humorísticas. Em geral, subestimam o papel das protagonistas, destoantes dos clichês da condição feminina reiterados na literatura tradicional. As mulherinhas de Paulo Emílio não têm a menor dificuldade em expressar os próprios pensamentos e emoções, contanto que isso lhes convenha. Nas três novelas, elas demonstram raiva, revolta, calculismo, patifaria, sem se deixar inibir pelo marido, sempre um paspalho e, ele sim, vítima da ilusão amorosa. Elas exercem a manipulação sem pudor. Mas, de início, não se expõem. As narrativas dividem-se em dois momentos. No primeiro, ocorre a manobra em que as mulheres atuam iludindo o homem para a satisfação de um plano, seja de gravidez ou de mobilidade social. Exibem, então, um conjunto de atributos que encantam os ingênuos PPPês e sustentam a virilidade deles. Parecem doces, passivas, tímidas e, em certa medida, até inocentes. Em nada os ameaçam. No segundo momento, assumem um discurso que as afasta do lugar onde antes haviam se posicionado. Pela fala ou pela escrita, demonstram, então, ter têmpera indomável, grande capacidade criativa, talento para a dissimulação, além de muita vivacidade e energia mental. Dão a conhecer o próprio desejo e o modo de efetuarem escolhas motivadas apenas pelo que querem. Faz parte da evocação de procedimentos narrativos de outras épocas, tão cara a Paulo Emílio, o papel decisivo que, em uma das novelas, talvez a melhor delas, desempenha um gênero confessional marcantemente feminno e muito em voga no século 19: o hábito solitário de escrever diários, essa
escrita de si. As três mulheres de três PPPês constitui uma farsa produzida a partir de efeitos da linguagem e, de acordo com isso, é por formas de relato que as mulheres logram fazer os homens acreditarem na simulação que elas armam, do mesmo modo que, no segundo tempo, ao compor novo relato, irão revelar como, de fato, são. A dinâmica entre os casais com o casamento em crise, até para causar riso, se afasta do previsível e do lugar-comum. No entanto, sendo ainda uma construção masculina, com suas protagonistas o autor inverte, mas não subverte a representação estereotipada da relação entre homem e mulher. É pela via do humor que reflete percepções culturais profundas e serve-se do riso como instrumento poderoso para compreender modos de sentir e de pensar de determinados grupos. Correio Braziliense
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