Todo mundo gosta de estar “por dentro” das coisas, dos acontecimentos, dos eventos. Por exemplo, você sabe que está “por dentro” da literatura se conhece 1984 e A revolução dos bichos. E vai estar “por dentro” da cultura se souber que o autor desses livros foi o inventor do Big Brother. Agora, aqui, você vai ficar “por dentro” de outras coisas importantes sobre o autor. Por exemplo, George Orwell também era um sujeito que gostava de estar “por dentro”. Simples, não é? Só que pra ele isso significou fome, vagabundagem, sujeira, doença, enforcamentos, traumas, guerra civil e guerra mundial. E outras coisas talvez menos perigosas como presenciar torturas, enforcamentos, morte de elefante, mesquinharias. Quer dizer, pra estar “por dentro” ele precisou viver à margem da sociedade, literalmente “por fora”. Além disso, ele nasceu na Índia, mas era inglês. Se chamava George Orwell, mas nasceu Eric Blair. Estudou em Eton (escola de primeira qualidade), mas passou fome em Paris e em Londres. Sempre “por fora”, sempre out, sempre deslocado. Queria ser escritor, mas com menos de vinte anos engajou na Polícia Imperial Britânica na Birmânia. Sorte da literatura. Sorte da prosa. Sorte do jornalismo. Sorte da televisão. Sorte sua. Sim, porque da vida miserável de George Orwell saíram as maravilhas que enfeitam estantes das bibliotecas, dormem nas livrarias, inspiram filmes, promovem reality shows. Do mesmo modo, foram as mãos sujas e calejadas dos mineiros que acenderam o carvão pra iluminar o Império Britânico. Depois dessa introdução, digamos, vou mostrar as preciosidades que catei a caminho de Wigan – onde ficavam as minas de carvão da Inglaterra. Orwell ficou “por dentro” da vida nas minas entrando nelas, rastejando quilômetros no fundo da terra, aspirando carvão e sufocando. Lendo o livro A caminho de Wigan (1937) tive a noção exata do preço que a Inglaterra pagou, ou, melhor, cobrou dos trabalhadores pra montar o faustoso Império Britânico, onde o sol nunca se punha. Ou seja, ele dava a volta no nosso Planeta. Eis as pedras preciosas extraídas de uma mina de carvão: 1. O ódio racial e religioso, as diferenças de educação, temperamento, intelecto e mesmo de código moral, tudo isso pode ser vencido; mas não a repulsa física. Pode-se ter afeição por um assassino ou sodomita, mas não se pode ter afeição por um homem com mau hálito – isto é, um homem que normalmente tem mau cheiro. 2. Somerset Maugham, citado por Orwell: O banho matutino divide as classes de forma mais eficaz do que a origem, a riqueza e o grau de instrução. 3. De minha parte, descobri que preciso de dois banhos completos depois de ter ido visitar uma mina de carvão. Gastam-se dez minutos só para tirar a sujeira das pálpebras. 4. Este é o destino inevitável dos sentimentalistas. Todas as suas opiniões mudam, de maneira radical, ao primeiro contato com a realidade. 5. No mundo intelectualizado, uma pessoa “sobe”, se é que “sobe”, não tanto por sua capacidade literária quanto por ser a alegria e a animação dos coquetéis e por lamber os pés de celebridades venenosas. 6. Só quando conhecemos alguém de uma cultura diferente é que começamos a perceber quais são, na verdade, nossas próprias crenças. 7. Coloque um pacifista para trabalhar numa fábrica de bombas e em dois meses ele estará fabricando uma nova bomba. 8. A Grande Guerra não teria acontecido se a comida enlatada não tivesse sido inventada. 9. Indivíduo da classe média que é um socialista fervoroso aos 25 vira conservador arrogante aos 35. 10. Só agora, com o triunfo da mecanização, é que podemos realmente “sentir” que a tendência da máquina é tornar impossível uma vida integralmente humana. 11. A tendência do progresso é frustrar a necessidade humana de esforço e criação. 12. Quando tinha 14 ou 15 anos, eu era detestavelmente muito esnobe, mas não muito pior do que outros meninos da minha idade ou classe. 13. Os chineses, creio, dizem que homem branco cheira a defunto. 14. Um dos meus subinspetores nativos estava torturando um suspeito. O americano observou a cena e então voltou-se para mim e disse: “Eu não gostaria de ter o seu emprego.” Senti-me terrivelmente envergonhado, Então, “aquele” era meu emprego! Você deve estar pensando o mesmo que eu pensava quando era jovem: os escritores ingleses, por serem de um império poderoso, não seriam todos ricos, bem tratados desde sempre? Triste engano. George Orwell deu duro danado, dormiu na rua, hospedou-se em hotéis imundos e cheios de percevejos, passou fome, mendigou, foi internado por problemas psicológicos, lutou na guerra... Tudo isso sob a proteção da gloriosa bandeira do Império Britânico. E ele não foi uma exceção, mas esse é assunto pra outra crônica. A sorte dele foi ter lucidez, poder com uma caneta na mão, entusiasmo estético, coragem e fome de viver. George Orwell viveu só 46 anos (1903/1950), mas triunfou na literatura, no jornalismo, nos ensaios. Está aí, de pé, com uma obra sólida que ainda pulsa e pode nos levar a ficar “por dentro” do mundo em que ele viveu. Esse mundo que, tristemente, ainda está aí em qualquer rua ou esquina, passando fome, sem educação, mendigando, sofrendo achincalhes e maus tratos. O mundo out and down, por fora, eternamente deslocado.
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Abraços, Werneck