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Mulher Na Obra De Borges E Neruda
Para ninguém é segredo que Borges e Neruda foram
homens muito diferentes. Um, Borges, ataca o trabalho de expressar o mundo a partir da erudição e o jogo intelectual. Neruda prefere uma absorção material do mundo e resgata do universo cultural só sua aparência humana. Uma diferença fundamental foi a presença da mulher em suas obras. Virginia Woolf manifestou, em princípios do século, que os homens se ocupam mais das
mulheres que estas dos homens. Esta verdade, extraída da história literária, não se pode retirar com regularidade das obras de todos os autores. Para Neruda o amor entre o homem e a mulher é a força que lhe dá sentido à existência. Para Borges, é um elemento a mais, do qual se pode prescindir sem aliterar substancialmente o curso do devir humano. Na obra de Neruda a mulher é uma
protagonista essencial. Assim, a plasma no livro Os Versos De Capitão. Quando o
poeta havia entrado em sua etapa pós-moderna, no livro A Espada Acesa concebe, no final da História, a salvação da espécie humana através da união corporal e espiritual de último sobrevivente da catástrofe terrestre e da mulher escapada da cidade dos Césares. É dizer, dentro e fora da História, a mulher é uma força ativa, íntegra, imprescindível. Volodía Teitelboim, amigo do poeta e um de seus biógrafos, sustenta: "Ao menos entre os poetas contemporâneos em língua castelhana, é o apaixonado por antonomásia. O amor lhe abalava as entranhas, passando sempre sua corrente pela alma. Tinha memória de suas paixões. Alimentou com elas páginas e páginas. E continua Teitelboim: "Em essência, não lhe interessa a mulher objeto. A mulher põe a fascinação, o encantamento. Fará da calada a eloqüência sem palavras, porque a palavra mágica a dirá o poeta tocado pela graça". Ao invés, nos contos de Borges a presença feminina é mínima e desconcertante. Alguns personagens (como a de cabelo vermelho do
conto O Morto e a Lujanera De Homem da Esquina Rosada) são mulheres que carecem de individualidade, dóceis ao homem que se impõe na briga ou dá mostras de maior coragem. Benjamín Otárola, o protagonista do Morto, sabe que "a mulher, o apero e o colorido são atributos ou adjetivos que um homem aspira a destruir". São, em suma, fiéis exemplos da seleção sexual postulada por Darwin. Em outro conto, A Intrusa, os protagonistas (dois irmãos) compartilham o amor de uma china. A presença da mulher atuou como obstáculo na relação harmoniosa que ambos os irmãos compartiam. A mulher –uma peça sem vontade nem pudor– será assassinada sem ter consciência de plano dos irmãos. Alicia Jurado, amiga de Borges e uma de suas biógrafas, escreveu: "Poucos relatos são mais atrozes que este magnífico conto, que nenhuma mulher pode ler sem indignação e aversão". A mesma autora agrega: "Em muitos relatos não aparece nenhum personagem feminino; em outros, põe as mulheres em palco como um diretor teatral mandaria colocar um vaso ou uma cadeira, porque agregam verossimilhança ao ambiente, porém são borradas ou casuais ou, em suma, indiferenciadas e passivas". Os personagens femininos de Borges, como todos seus personagens, carecem de individualidade. Simbolizam um caráter, um arquétipo, um símbolo, e dentro da trama cumprem um rol acessório, salvo a protagonista de conto Emma Zunz que, movida por seu afã de represália, se faz violar para encobrir o assassinato de quem lhe quitou o distinção a sua pai. Um rol nada agradável num conto cujo argumento pertence a um amigo de Borges. Porém, estamos falando, sobre tudo, de suas obras. O autor do Informe De Brodie foi, na vida real, um homem muito dependente das mulheres. Sua mãe, Leonor Acevedo, teve uma influência decisiva, condicionante sobre o poeta, igual a sua polemica companheira, Maria Kodama. Com as mulheres começou também estranhos laços de amizade. Recordo, por exemplo, os nomes de Esther Zemborain, Maria Esther Vásquez, Alicia Jurado, Margarita Guerrero, Luisa Mercedes Levinson, Silvina Bullrich, Delia Ingenieros, entre outras. O caso de Pablo Neruda não é menos conflituoso. Todas suas mulheres, momentânea ou definitivamente, sofreram o abandono amoroso. De rainhas passaram a ser cumprimentos de um soberano que se afligia em perdê-las, porém que respeitava seu destino de amante onívoro. Enfrentar a vida à obra permite um conhecimento mais fidedigno do pensamento real dos autores. Em Borges e Neruda está a prova do que o irreconciliável se atenua quando se tomam em conta os avatares de seu incidente existencial. A conjectura de que os destinos humanos mantém entre si uma unidade essencial, aparece repetida na obra de Borges. Os protagonistas (indivíduos que professaram em suas vidas idéias antitéticas) vão ao céu e se apresentam ante Deus, que os confunde. Podemos pensar então que, num hipotético céu, Neruda e Borges sejam, além de seus diferencias terrestres, uma só pessoa. Donanfer
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