RESUMO – DENTRO DA BALEIA – George Orwell
PERIPÉCIAS DE UM VENDEDOR NUM SEBO
Quase
impossível não rir ao
tentar resumir um livro que, num dos
ensaios, nos conta
sobre a impossibilidade de se resumir
livros. Fique frio. Só faço resumo aqui do
que gosto. Logo, Orwell me perdoaria.
Bem, todo
mundo conhece George Orwell, de um jeito ou de outro. Se eu citar “A revolução
dos bichos”, metade dos leitores daqui vai bater palmas. Se eu citar “1984”,
todo mundo vai bater os pés no chão de contentamento. Mas, “Dentro da baleia”
não é muito conhecido. Não é ficção. Mostra os anos em que o autor ralou pelo
mundo. Quase na miséria. Pausa: já notou que quando se fala em autor inglês,
ele sempre nos parece “bem de vida”? Autor inglês sempre tem ar de pessoa
sofisticada, que estudou em Oxford, tem título de nobreza e só come do bom e do
melhor. Para mim, assim é. Só que muitos escritores ingleses viveram de mal a
pior e Orwell foi um deles. Foi policial inglês na Birmânia, vendedor de livros
em sebo, professor de escola e particular, resenhista de livros. Orwell nasceu
na Índia, mas era filho de um funcionário público britânico que trabalhava lá.
E zanzou pela vida acreditando em duas coisas: literatura e política. Escreveu,
desse modo, ficção e textos que denunciavam crimes, miséria, opressão, etc. Ele
viveu intensamente, embora por pouco tempo. Nasceu em 1903 e morreu em 1950. Se
você pensar nisso, vai dar mais valor ainda aos escritos dele. O livro “Dentro
da baleia”, por exemplo, nos mostra um cara angustiado com as falcatruas gerais
do ser humano. Presenciou enforcamento, atropelamento de um elefante por um
trem, desmandos do comunismo, horrores da guerra, morte de pobres num sanatório
(ele era um dos internos, por desequilíbrio psicológico!) e foi ferido na
Guerra Civil espanhola. E, mais do que isso, tinha um apurado gosto literário.
Nos ensaios sobre livros ele destaca “bons livros ruins” – aqueles que sobrevivem
apesar de não serem alta literatura (Conan Doyle, por exemplo). Ele “descobre”,
por assim dizer um escritor que até hoje tem seus livros reeditados, mas que naquele
tempo era considerado “pornográfico”! É Henry Miller – que lançou o “Trópico de
Câncer” em 1935 – e foi tema do ensaio “Dentro da baleia” em 1946. O livro foi
considerado pornográfico porque Miller empregava palavras ditas “impublicáveis”,
mas que hoje aparecem até em música de sucesso, que ganhou até prêmio! Orwell
gostou bastante do livro e disse que ele ficaria para a posteridade. Acertou.
Henry Miller está presente em várias reedições (em 2007) e às mancheias em
qualquer sebo. E é bom! Por falar em sebo, Orwell conta coisas interessantes daquele
em que trabalhou. Uma delas é a do cara que lia quatro a cinco novelas
policiais por semana. Ele nunca relia. E, quando comprava, sabia pela capa se
já tinha lido. Nem prestava atenção no nome do autor ou no título. Só com uma
olhadela sabia se tinha ou não lido. E, quanto às resenhas de livros, Orwell
dizia que era o trabalho insano, feito por encomenda de editoras, por
resenhistas desesperados por dinheiro, e que era em essência “uma farsa”. Ele
diz que a maioria dos livros, nove entre dez casos, devia receber uma frase
direta e verdadeira: “Este livro não tem mérito”.
No caso do
“Dentro da baleia”, juro que tem mérito. Não faço resumo a pedido de ninguém.
Li, gostei, me entusiasmei com o modo limpo, direto e bonito de escrever do
Orwell. É um livro que motiva, anima, inspira. Pronto. É da Companhia das
Letras, mas já tem nos sebos. Comprei o meu num deles e está bem conservado – foi
lançado aqui em 2005. Uma curiosidade: o copyright do livro – espólio de Sonia
Brownell Orwell – é de 1984.
Abraços,
Werneck. Se gostou do resumo, use, vote, dê nota, comente. Tal como Orwell,
escrevo por amor à literatura... mas a grana é bem-vinda.