A Biblioteca Azul foi um movimento que tinha como objetivo levar textos impressos às camadas
populares da
sociedade. Os livros
deveriam chegar a todas as camadas da
sociedade, ampliando o público de leitores, em um período em que somente às elites cabiam os livros. Um processo de adaptação foi operado no texto de obras apropriadas pela Biblioteca Azul, reescritos em uma matriz cultural
diferente daquela de seus destinatários originais. Com isso, diversas vezes era grande a distância entre a primeira publicação do material e sua entrada na Biblioteca Azul. Brochuras normalmente encapadas em papel que, nem sempre, era azul e com um custo de produção de menos de um centavo por exemplar os livros azuis se tornaram progressivamente, entre 1660 e 1780, um elemento particular da cultura camponesa. Textos de ficção cômica, conhecimentos úteis e exercícios de devoção agradaram de forma imediata às camadas populares, principalmente na esfera rural. A Biblioteca Azul constitui-se de um acervo que buscava o leitor, poi ia até ele e isso foi um ponto importante para seu sucesso: as distâncias entre livro e leitor foram encurtadas pelos mascates. Dessa forma, não era mais preciso ir às cidades para ler. A leitura chegou ao campo. Publicados por editores como Oudot ou seu rival, Garnier, a prática era buscar entre os textos já editados aqueles que se julgava como os mais adequados ao grande público. É importante salientar que a livraria ambulante não era dedicada apenas às obras antigas, já que havia uma busca pela novidade, por títulos da moda. Eram textos que podiam ser comprados por um vasto número de leitores, em resposta a uma expectativa partilhada, seja da ordem da devoção, da utilidade ou do imaginário. O catálogo dos textos transformados em livros azuis tratavam da vida de Santos, de contos de fadas, romances de cavalaria, receitas culinárias, aprendizado, discursos sobre as mulheres, etc. Eram ligados ao cotidiano e obedeciam a certas estruturas ou narrativas que empregam temas comuns. Mais do que os temas, o parentesco das estruturas textuais explica a escolha dos impressores, pois deviam estar em sintonia com as competências culturais do público alvo. Os originais sofriam alterações a fim de facilitar a leitura. A apresentação do texto era remodelada, com multiplicação dos capítulos e aumento do número de parágrafos, servindo de auxílio para a retomada do texto quando a leitura fosse interrompida. Cortavam-se as narrativas consideradas supérfluas e descrições de propriedades sociais ou estados psicológicos. Havia também uma modernização de fórmulas gramaticais envelhecidas ou difíceis, com um enxugamento das frases. Tudo era organizado de acordo com a clientela almejada. A redução dos textos objetivava, também, censurar referências à religião e depurar a narrativa de tudo o que aparecesse como blasfematório. Esse trabalho de adaptação era feito principalmente por clérigos, letrados e dignitários, que buscavam dar uma nova legibilidade aos livros, mesmo que os cortes tornassem os textos, por vezes, difíceis de serem compreendidos, gerando incoerência. Porém, tais problemas não afetavam a venda dos livros. A relação do texto azul com seu comprador é diferente da relação do leitor tradicional e seus livros. O livro azul até poderia ser considerado inútil, mas nem por isso deixava de vender. Há quem defenda a idéia de que os livros azuis não eram comprados para serem lidos. A posse do livro valia mais do que a própria leitura e as incoerências não importavam. A Biblioteca Azul buscava uma prática de leitura diferente da elite erudita ou daqueles já familiarizados com o livro. Seus leitores eram numerosos e variados. O pré-conhecimento das narrativas ou qualquer outro conteúdo era utilizado para facilitar a compreensão dos textos.