RESUMO: A
CORAGEM DE CRIAR – Rollo May
Um poeta na
linha de montagem
Curitiba está
fria, nublada.
A Primavera viajou para a Holanda ou Praga. Tem um chato cantando sunshine on my
shoulder makes me happy. Vá cachimbar formiga, cara! O tempo fechou
a cara e não abre. Você abre o livro do Rollo May e cai na página 69: “Vivemos
num mundo
mecanizado por excelência. Os fenômenos irracionais do inconsciente
constituem uma ameaça a essa mecanização. Os poetas podem ser criaturas
adoráveis no campo ou na mansarda, mas são verdadeiras ameaças nas linhas de
montagem. (...)”
Você sabia que
as aspas abrem com 66 e fecham com 99? Um cara comenta a frase de Heráclito de
Éfeso (500 a.C.): “Nada é definitivo, exceto a mudança.” E ri da frase,
completando: “A mudança não é definitiva porque é mudança”. O esquisito não é
ele comentar a frase achando errada. Estranho é não entender que foi dita
(escrita) 500 anos antes de Cristo. A ruptura temporal: todos os tempos agora.
A frase está no ar, logo, flutua e flui. As realidades todas se amontoando na
cabeça que vira caixa de ressonância. Colcha de retalhos: Wernética. Bote um
poeta na linha de montagem do mundo e pronto. Que nas engrenagens nasçam rosas,
que nas cabinas de pintura espoquem estrelas, que nas embalagens a vácuo as
palavras riam. Não há mais poetas no campo ou nas mansardas. Byron, good-bye! Estão todos nas linhas de
montagem de automóveis, nas indústrias de cosméticos, nas pesquisas de
inseticidas, nas campanhas políticas, na produção de softwares e hardwares. Poetas
não são softs nem hards. Apenas vivem e até pegam ônibus biarticulados e ligeirinhos.
Poetas não são criaturas adoráveis. Goethe, lebewohl! Martelam as palavras em
ferro frio. Pelo som. Tocam os versos com chicote longo. Pelo ritmo. São egoístas
solitários. Rimbaud, adieu! Carentes eternos de algo que nem sabem se existe. Rollo
May: “Quando a inspiração vence as barreiras e se torna consciente, temos a
convicção subjetiva de que a forma só pode ser essa. (...) A ‘certeza imediata’
de Poincaré.” Do que ter certeza imediata? Neruda, adiós! Certeza de que o
verbo era aquele, o substantivo é insubstituível. Mais nada. Poesia está na
cabeça das pessoas. Do leitor. O poeta apenas dá a partida. E volta pra linha
de montagem de câmbio automático.
Leia Rollo
May, Editora Nova Fronteira, mas continue fazendo poemas do seu jeito. Rilke
mandava cartas para um aspirante a poeta e, numa delas, falou que não se deve
dar ouvidos aos críticos e aos ensaístas muito eruditos. Deve-se deixar a própria
vida maturar e fazer a poesia valer. Como salienta Rollo May: Você pode ter
talento e não usar, ter vontade e não realizar. “A
criatividade só existe no
ato.” Na intensidade do encontro. No ato de fazer, realizar, concluir.
Abraços,
Werneck. Se gostou, vote, dê nota e seja feliz!