a - Classificação - Trata-se de um romance social, tendo como núcleo
principal a história de um patriota tão puro e
ardente quanto ingênuo,
quase louco.
b - A narração é feita em terceira pessoa, narrador
onisciente. Em pequenos trechos, a história é contada pelos próprios
personagens, como as circunstâncias da guerra que o major Quaresma
descreve, em carta, a sua irmã Adelaide. Como o autor conduz
simultaneamente vários núcleos dramáticos (várias histórias), ele às
vezes antecipa alguns fatos para, em flash-back, voltar atrás e
explicar como as coisas sucederam. Assim, no terceiro capítulo,
Genelício dá a notícia de que o Major Quaresma fora internado num
hospício. E só no capítulo quarto é que iremos saber as causas e
circunstâncias desse internamento.
Lima Barreto desenvolve,
simultaneamente, o núcleo principal e os núcleos secundários da
história. Em quase todos os capítulos comparece a totalidade dos
protagonistas. Para isso o autor se vale de encontros fortuitos entre
os personagens, ou de correspondência, ou de visitas recíprocas, ou
festas e almoços. Através desses processos ele encontra jeito de ir
contando paralelamente a história de todos e de cada um.
Os
diálogos são, geralmente, de extraordinária espontaneidade e adequação
aos personagens: a fala de Genelício é sempre pedante, afetada e
superior; a do Major Quaresma trai as suas leituras patrióticas e seu
jeito tímido a formaliza; a de Vicente Coleoni e entremeada de
expressões e palavras italianas...
Tempo: o romancista da Primeira República
1 A ação do romance situa-se numa época precisa: a da implantação da
República no Brasil, com os governos de Deodoro e, sobretudo, do
Marechal Floriano.
Os acontecimentos políticos são vistos no
livro não pela ótica oficial, mas pelos olhos do povo e, em particular,
na perspectiva da classe média suburbana.
Sob o aspecto
sociológico, Lima Barreto conseguiu uma pintura perfeita: surge diante
dos olhos aquela época dos fraques, das casacas e sobrecasacas, do
pince-nez (óculos de um aro só), das correntinhas de ouro nas cavas dos
coletes, das bengalas e das cartolas... Dorme-se de camisão, paga-se em
ceitis, mil réis e contos de réis. Anda-se de coches, de tílburis e de
bondes puxados a mulas, joga-se o pocker , as mulheres enfiam-se em
cassas bem engomadas... As gravatas têm alfinetes, as casas são
ornamentadas com monogramas na porta de en-
trada, compoteira nas cimalhas e outros detalhes equivalentes...
Já o tempo da narrativa é cronológico: os fatos, normalmente são
apresentados em sua seqüência temporal. Raramente, como vimos há uma
antecipação, em algum capítulo, logo seguida de um flash-back para
restabelecer o elo perdido.
Lugar: o romance dos subúrbios do Rio
Com exceção dos meses passados no Sossego, a obra se ambienta, como
outras de Lima Barreto, no Rio de Janeiro e, sobretudo, nos seus
subúrbios. Há um pano de fundo maravilhosamente bem retratado,
econômica, social e folcloricamente: o sossego das ruas da periferia,
as fofocas, a vigilância e o comentário dos vizinhos sobre os vizinhos,
os tipos populares ? como o próprio e inesquecível Ricardo Coração dos
Outros. A aristocracia dos subúrbios, composta
de funcionários
públicos, de pequenos negociantes, de médicos de alguma clínica, de
tenentes de diferentes milícias, nata essa que impara pelas ruas
esburacadas daquelas distintas regiões...
O ambiente burocrático
das repartições publicas, de papelada inçada, de conversas e gozações,
e descrito com vivacidade: Lima Barreto o conhecia muito bem.
Outra reconstituição que nos cala fundo, porque é feita com fibras de
sua própria vida e experiência, é a do hospício, onde Quaresma passou
uma temporada.
O sítio do Sossego é descrito logo no início da
segunda parte. O lugar tinha o aspecto tranqüilo e satisfeito de quem
se julga bem com sua sorte. A casa erguia-se sobre um socalco, uma
espécie de degrau, formando a subida para a maior altura de uma pequena
colina que lhe corria nos fundos. Em frente, por entre os bambus da
cerca, olhava uma planície a morrer nas montanhas que se viam ao longe.
Essa planície era cortada por um regato de águas sujas e, qual uma
fita, pela via férrea. A habitação era também risonha e graciosa nos
seus muros caiados. Edificada com a desoladora indigência das nossas
casas de campo, possuía, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com
janelas, e uma varanda com uma colunata heterodoxa.
Outra
excelente descrição dos subúrbios do Rio aparece no segundo capítulo da
segunda parte, conforme mostramos ao resumir o enredo. Finalmente, nos
últimos capítulos do romance a ação decorre muitas vezes a beira-mar. E
não faltam as poéticas reconstituições desse ambiente: a cerração que
de manhã envolve tudo, o pôr-do-sol na praia...
O centro da
cidade, a época da rebelião, era alegre e jovial. Havia muito dinheiro,
o governo pagava soldos dobrados... Os teatros eram freqüentados e os
restaurantes noturnos também.
Em contraste, o Campo da São
Cristóvão: ia vendo aquela sucessão de cemitério, com as suas campas
alvas que sobem montanhas, como carneiros tosquiados e limpos a pastar;
aqueles ciprestes meditativos que as vigiam; e como que se lhe
representava que aquela parte da cidade era feudo e senhorio da morte.