Não lembro que horas eram quando
elas começaram a chegar, recordo-me apenas da boca seca, da ardência
nos olhos e da lua alta e clara. Elas não se intimidavam apesar da
minha insistência em lembrá-las de sua sutil condição de meras
alucinações, pelo contrário, reagiam cada vez mais agressivas apesar de
minha perceptível indiferença causada pela rotina da situação.
Em
minha entorpecida mente flutuavam frases vagas e fragmentos de
lembranças que, imagino, venham dos livros de Castañeda e Hesse além de
alguns inúteis comerciais apelativos e ineficazes que são veiculados
para coibir tal torpor. O eco em minha consciência insistia em repetir
a efusiva sentença :"danos cerebrais irreversíveis". Porém, como seria
uma mente humana para a consideramos normal, sem danos? Qual o grau de
clareza de pensamento que é utilizado como referência para tal
mensuração? Aliás quem definiu o que é clareza de pensamento? Soltas
perguntas cujas respostas não obtive.
O coração parecia querer
explodir em meu peito quando o suor gelado e malcheiroso começou a
escorrer, sua consistência viscosa impregnou meu corpo inteiro.
Assistir
Tv era impossível, foder com a garota que estava ao meu lado também
não era opção, conversar nem pensar. O único pensamento que amenizava
aquela angústia ferrenha era imaginar a chegada da moto que traria mais
uma dose. Mas isso não ia acontecer e a agonia aumentava. Então resolvi
sair, chamei as chaves, sai sem abrir a porta e levitei até o carro.
Vultos
de homens errados, sonhos, penumbra, solidão e noite eram minhas
constantes companhias. Foi então que resolvi desacelerar, aproveitar o
clima pesado, suguei a doce aura de contravenção que do caminho
emanava. Agora, apenas ébrio, supunha saber meu destino, pelo menos o
desse instante.
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